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sexta-feira, 11 de março de 2016

Uma sombra olhava a outra

hoje dormi umas nove horas, quase prego a fundo, quando acordei fiquei na penumbra a sentir os membros dormentes, adormecidos, estava ali diante de mim como uma pedra diante de outra pedra, claramente uma era mais dura, ainda assim talhada numa forma indefinida, embora eu conseguisse perceber que o escultor se estava a marimbar para o efeito. Nada disto se entrevia facilmente, porque filtrado por uma luz minúscula, que se resumia a um esplendor indecente rosnado por debaixo da porta, parecia mesmo rosnado, um feixe de luz miserável que se divertia em diatribes no quarto. Além. Também fazia escuro dentro de mim, mas esse escuro dentro de mim parecia estrangeiro, tisnado pela luz, formando uma camisola de equipa adversária, as listas não eram horizontais, nem verticais, mas eram certamente listas, juro, a cada momento uma tenaz poderia assomar com a sua voz a indicar o caminho dos cereais, do duche, cereais?, pensei, enquanto bebia água (isto às escuras) de uma garrafa localizada estrategicamente na mesa de cabeceira. Foi então que gritei. A voz devolveu-me uma certa calma e a janela finalmente abriu-se: estava sol. Isto não quer dizer nada, pensei...

quinta-feira, 10 de março de 2016

isto vai

hoje até dormi quase sete horas, acordei a pensar na cena, já ontem dormi seis e acordei a pensar em cenas, levitei nessas cenas durante quase um hora e voltei a adormecer, voltei a acordar, as cenas habitavam um espaço muito confuso com árvores e castelos medievais, uma cidade ali para os lados da Guarda, uma posta de pescada cozida (tenho saudades de pescada fresca cozida), dois contos intermináveis, uma posta a publicar, aquilo era um lugar muito estranho, pouco recomendável. Levantei-me ainda com a cenas que carreguei todo o santo dia, isto ontem, hoje vai pelo mesmo caminho, as cenas bifurcam-se, encolhem, insinuam-se como a Cristina Ferreira em revistas estrangeiras aos gritos, porque gritas?, perguntam-lhe, ela não sabe responder coitadinha, levantei-me, isto hoje, decidido a meter as cenas na ordem, mas estava, estou, dobrado, lavei os dentes antes de tomar o pequeno almoço deixei arrefecer o chá, duchei no meio disto tudo, acho. Isto vai...

domingo, 13 de dezembro de 2015

dia não sei quantos eu sei lá ao domingo: semiótica oxigenada

Já cá estou, mas nem isso foi fácil, dias atrás de dias numa enxurrada de sentidos que inundaram a baixa da minha alma. É claro que a baixa da minha alma havia sido mal planeada, entulho marado a teria aumentado e indevidamente conquistado ao corpo, simulando segurança movediça, inventando passagens secretas que mais não seriam que puro simulacro, prazenteira ilusão. Nada disto caminha(va) a par com o resto das forças que nos versejam e mitificam neste mundo, pelo menos até onde os olhos conseguem ver, ou até onde os nossos passos nos conseguem carregar, nada mais, isso sim, a minha concepção de cidade, com todas essas ligações térreas, mas sobretudo como projecção de nós próprios. Não ficará tudo na mesma nesta transição velada por Janus, ou talvez fique apenas a sua representação, a sua projecção sombreada. Não acredito, basta mordermos um lábio para que o mundo sensível faça todo o sentido. 

domingo, 17 de maio de 2015

dia não sei quantos domingo: já acordado?

quem diria a pensar na morte da bezerra, as perninhas a assinalar a penumbra no quarto, dir-se-ia que, como um dia escreveu Sebastião Alba, escutando bem, ouve-se como ao pé das estátuas / música de uma fanada melancolia...

[agora vou ali escrever - em pensamento- uma ode ao sol]

sábado, 15 de fevereiro de 2014

dia não sei quantos três mil e outros tantos sábado: ainda sou daqui

Um dia Carlos Díaz Dufoo (fillho), estando por Paris sem sair do México,  escreveu assim: no seu trágico desespero arrancava brutalmente os cabelos da sua peruca (obrigado, Vilamatinhas). [zzzZZZZZzzz]

sábado, 13 de abril de 2013

dia não sei quantos 282: tztzzz fiufiuu


A situação não se apresenta num grau de complexidade por aí além, apesar da madruguice, acordei ainda o caralho do galo esperneava o seu pesar citadino, acordei com os pensamentos retardados do ensopado mais alguns a rastejar por perto, fiquei horas no escuro com vontade de arranjar uma daquelas máquinas que se prendem ao tecto dos tascos para matar moscas, e as moscas estalam tipo tzzztzzz, e fazer o mesmo com os pensamentos tztzzztzz e com as novas minhocas projecto que não trazem pataco, sendo que as minhocas projecto fazem um tsstss mole e ligeiro tss. Está sol e vou assim, step on, fiufiufiufiuuu.

quarta-feira, 6 de março de 2013

dia não sei quantos 244: conclave nómada


Acordei despachado com um resto de filme na boa. Decididamente, ainda não há data definida para responder às vozes interiores sobre a pressão legítima dos últimos tempos, e não havendo informações sobre esse conclave mental do Cão a especulação é uma impressionante planície revestida a nada. Depois escrevi umas merdas no notecaderninho vermelho, deu-me para ler umas cenas de um livro e depois umas cenas de outro, não fui correr, não pensei mais no caso, dei um voto de confiança aos abdominais e fui mercadejar ali perto. Sou polivalente, vou aos treinos quando posso, identifico a beleza perdida num paralelepípedo, mas reconheço que a evidência destas conexões poderá não ser visível a olho nu.  

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

dia não sei quantos 217: miolos à paisana


Mal abri o olho disfarcei logo, fiufiuufiu [assobio interior], mas tarde – quanto? – fiquei com o mesmo olho aberto no escuro, é fixe estar de olho aberto no escuro, lá veio a persiana a reportar a luz, ou será o caralho de um estore?, eu paralisado, há animais que fazem isso para passar despercebidos, a pensar, isto vai começar bem, vai vai, depois escutei claramente o Calimero, es una injusticia, es una injusticia o caralho!, devo ter respondido e levantei-me, não sem antes trancar a mioleira e outros veículos transportadores de seiva essencial a quaisquer manipulas perversas exógenas. Já vos fodo, pensei, e fui malhar um chá preto. 

[querem ver: agora vou correr vinte minutos – não está fácil]

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

dia não sei quantos 208: regressar à procedência de uma forma esquisita


Não sei bem porquê, mas acho que acordei com aquele ar típico de um tipo que tivesse aprendido a cair bem ao levar um soco, isto recorrendo a uma imagem singelamente facultada por Philip Marlowe, quer dizer, por Raymond Chandler, no imenso adeus, primado do policial negro o caralho!, aquilo é um romance do melhor venha quem vier, e com as cores que lhe queiram dar, os cabrões, não faltam por aí cabrões a dissertar merdas sobre literatura, e a classificar as merdas como o Linnaeus fazia na cena da nomenclatura binomial, para as plantas, ou isso, mas é mais do que isso, e depois um gajo não consegue ficar calmo, simplesmente não consegue. Depois fui ver umas merdas no computador e saí para correr quinze minutos, mas ainda não sabia que a coisa no final ia descambar para os lados da mercearia grande. Ainda tenho a comichão no braço...

[ontem também respondi a mais dois anúncio de emprego(?) - risinhos]

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

dia não sei quantos 195: robe de chambre est un vêtement d'intérieur (?)


Já de pés e quase deitados, a penumbra a envolver a situação entrosada com desenvolvimentos parcimoniosos, uma mão a agarrar um copo de água, risos, dez e picos vê lá tu, meia dúzia de pensamentos congeminados com as estranhas a caminharem rumo a uma decisão, quase chá verde, quase torradas, quase de pé, quase deitado. Agora vou ali ler qualquer coisa.

[depois ir ver da cena do livro técnico]

domingo, 9 de dezembro de 2012

dia não sei quantos 157: zsensações alheiaszz

ZZZzzZZZZZZZZZZZZZZZpedraZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZáguazzzzzZZZZZZZZZZZZZZZzzzzzcabeçafodidazzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzznáuseazzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzjá?

domingo, 2 de dezembro de 2012

dia não sei quantos 150: aterrar


zzaterrarzzZZZZZZZjá?zzzzzzZZZZZZZZzzZZZZZZZzzzzzáguaZZZZZZZZZZZZZZZmadrugarzzzzzzzzz…zzzeagora?zzz

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

dia não sei quantos 144: alerta-me isso


Nada mais estimulante do que os alertas matinais, alertas esses que superam em cor e brilho qualquer alerta da protecção civil e seus derivados, ou isso, este último pode ser laranja, pode ser amarelo, pode ser vermelho, já ninguém distingue a cena da outra cena, vivemos aos poucos a brincar aos alertas e completamente daltónicos funcionais relativamente a esses alertas (pó caralho com os redundâncias), já ninguém quer saber dos alertas que não servem para alertar, e um dias destes a coisa fica complicada e um tipo fica à mesa a acabar os finos ou as imperiais, conforme a situação geográfica, enquanto tudo se desmorona. Não foi o caso. Este alerta matinal, cuja cor não se conseguia definir a olho nu, acoplado a um telemóvel, despontou inexoravelmente o regaço de um braço e respectiva mão, a princípio terá sido apenas uma mão, depois assomou um corpo, ainda não eram a nove horas e já esse corpo desenjoava com o prazer único do paralelepípedo quando devidamente calcado pela roda de um automóvel de alta cilindrada, e ainda não seriam as nove e meia e já esse corpo galgava o monte a norte da sua casota rumo ao objectivo: acompanhar alguém a uma determinada unidade hospitalar. Mas primeiro impunha-se encontrar esse alguém, cá fora, entretanto o sol ora brincava aos alertas de cores garridas, ora aos cinzentos sombreados por nuvens de tipo Cumulos, ou isso, e não seriam mais de dez horas quando o objectivo número um foi atingido. Depois, já se sabe, nunca é fácil.

[mais tarde fui correr]

sábado, 24 de novembro de 2012

dia não sei quantos 142: aparente especialista em estranheza


Isso já vem de ontem, a cena do Menino, um conto do Vila-Matas nos Exploradores do Abismo, deu-me para reler aquilo, a antessala do vazio, mas também o mercadejar das angústias, ou isso, coisa com pano para mangas, capaz de nos por a andar horas a fio pela cidade, penso que no campo o efeito será o mesmo, estava a ruminar tudo bem ruminado, quando a manhã (isto já foi hoje) entrou pela janela, as frinchas de luz peneiradas pelos estores insinuavam gotículas de chuva, foda-se, pensei, esta merda está cheia de poesia, logo o pensei assim o disse em voz alta, esta merda está cheia de poesia, e ala que se faz tarde para o desenjoo. Entretanto, viajo por florestas Laurissilva, o que é uma redundância, a internet é assim, ruas com mar nas bordas, janelas que não servem (apenas) para o suicídio. Nunca se deve mercadejar com as angústias. 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

dia não sei quantos 141: o treina(r) [a] dor apenas não chega


Era uma vez um jogo de futebol entre uma equipa totalmente inexistente (não confundir com a inexistência do Cavaleiro Inexistente do Calvino), e uma equipa de relógios suíços de fancaria iguais àqueles que o Primo marroquino vende na praia de Buarcos em Agosto. A equipa de relógios suíços de fancaria iguais àqueles que o Primo marroquino vende na praia de Buarcos em Agosto, às vezes, transformava-se numa equipa inexistente, mas ainda assim não tão inexistente como a equipa totalmente inexistente, cuja inexistência congénita resulta numa atitude filosófica perante o jogo sem qualquer transigência.  Ganhou naturalmente a equipa de relógios suíços de fancaria iguais àqueles que o Primo marroquino vende na praia de Buarcos em Agosto, a qual às vezes também é uma equipa inexistente, por três bolas a zero, sendo que a equipa totalmente inexistente fez jus ao nome e as bolas atravessavam-na sem qualquer fricção. Seriam quase vinte horas da noite e fui tratar do porco grelhado com arroz de legumes, salada e um tinto manhoso a acompanhar, de existência comprovada.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

dia não sei quantos 140: sonhos


Nem sombra do sonho. E ao acordar, após uma luz suave entrar sorrateira no quarto, abri o livro e lá estava escrito que o “sonho ramificou-se noutro sonho antes de eu acordar”. Quem acordava era Borges em “1983”, e ali apenas estaria o seu fantasma, queria dizer-lhe isso mesmo, mas achei que não, ele provavelmente não sabia, e como ele próprio havia escrito, acho,  eu também não tive medo, senti apenas que era “impossível e talvez indelicado revelar-lhe que era um fantasma”, ou isso. Levantei-me a tempo de um chá com uma torrada e fui correr ao som de Death in Vegas. Foi isso. 

sábado, 10 de novembro de 2012

dia não sei quantos 128: insuficiência de nostalgia

ZZzzzzZZZzzzzzacordarzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzadormecerzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzacordarzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzchápretozzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

dia não sei quantos 118: circular é viver


Logo pela manhãzinha, no escuro, ainda no escuro, pensamentos amodorrados, pensamentos entredentes, aquela membrana ténue entre o dormir e o acordar que se vai - neste caso -rasgando aos poucos, semelhante àqueloutra que os surrealistas ambicionavam capturar antes do dormir, o corpo dormente, a mente vai-não-vai, pois foi nessa altura, acho, que escutei uma voz, temos planos, disse, não, qual é o plano das festas? – terá dito, acho que foi isso, e eu, tu queres ver que temos um propósito ou dois… onde, onde?, escutei claramente vindo do interior do meu cérebro. Nesse momento podem adivinhar o estado de espírito em que me encontrava. Entretanto a manhã pariu umas compras na mercearia, uma assistência técnica por mecanismo de garantia, um estacionamento e bolos. Na rua passeavam flores com seres humanos acoplados. Amanhã é dia feriado. É assim até ver.

sábado, 27 de outubro de 2012

dia não sei quantos 114: check please

Duas olheiras a dar a dar, uma em cada respectivo, profundas e papudas, ou isso, olheiras metafísicas, olheiras de trincheira nocturna, pesadelos movediços que carrego, acho que é isso, olheiras Benicio Del Toro a fugir, palavra que acho que é sábado, tenho a certeza, que horas são?, - dez e cinquenta e picos, ou picos para as onze, digo obrigado, o mundo todo às costas, corcunda mundo a caminho do desenjoo e faço ponto. Check please.