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segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Adenda ao anterior:

Encontrei parte do poema que a minha angústia havia feito levantar voo. Diz assim: Não toques nos objectos imediatos./A harmonia queima./ Por mais leve que seja um bule ou uma chávena,/ são loucos todos os objectos. Antes de mim, escreveu-o Herberto Helder. 

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

domingo, 21 de outubro de 2018

é verdade, faltava isto


um dia escreveu assim Yeats: O intelecto do homem é forçado a escolher / A perfeição da vida, ou do trabalho / E se escolhe / a segunda tem de recusar / Uma mansão celeste, enfurecendo-se em segredo. // Quando tudo acabar, o que haverá de novo? / Com sorte ou sem ela a labuta deixou as suas marcas: / Essa velha perplexidade é a bolsa vazia, / Ou a vaidade do dia, o remorso da noite.


Existe uma terceira escolha que nem sempre é possível detectar a olho nu (mesmo de um cão): cagar-se para a perfeição. Ou, no melhor dos caso (ainda estamos no âmbito da terceira - suposta - escolha) nem se aperceber que tem escolha, ou não a ter mesmo, o que vai dar exactamente ao mesmo (deixem passar) sítio. Não se esqueçam, agora estou no Inútil (mas quase sempre em espírito apenas). O Gabriel é que vai dando à asma.

terça-feira, 12 de abril de 2016

não dou pelo corpo a passar...

Lembro-me bem: por onde eu passo não se nota qualquer passagem, assim a olho nu, vou passando como quem passa, ou não passando como quem não passa, honro cada passagem com uma vénia, e cada não passagem com uma vénia, faz-se um (outro?) corpo destas vénias a preceito, mesmo com o corpo levantado, hirto, formando uma falange que congemina o passo seguinte. Respondo a perguntas como quem vai ao médico subindo a uma árvore. Pensando bem, é tudo carne um pouco mais pesada, sem ser penugem ou cortiça; para nas tendas ser levada ou para usar em qualquer liça, como diria, François Villon. O François sabia destas coisas.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Canto V

Io venni in luogo d'ogni luce muto, escreveu um dia Dante, e não precisava de ter escrito mais nada...

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

não sei dia quantas segundas: capitão!

as claridades do carvão que se torna em foca, faísca, insecto ante os teus olhos, os esquadrões de alucinados, os monstros de corda, os gritos dos sonâmbulos mecânicos, os estômagos líquidos em placas de prata, as crueldades das flores carnívoras hão-de invadir o dia simples e rural e o cinema do teu sono: assim escreveu um dia Tristan Tzara, e por aí deveria ter-se ficado a poesia, longe do dia simples, devidamente enterrada em mantos intermináveis como a neve (não Tzara?), juntamente com esse furor perpétuo que todos os dias anuncia a sua [própria] morte. Acho.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

dia não sei quantos à quarta: dispõe de três tentativas

no sonho matinal (já terá sido depois da mija), escrevia um conto ou uma novela sobre o mal de Brauer, igual ao litro, mais um conto mental, um conto sonhado, uma merda que não se sabe se chega ao mentalfémera ou ao psicocionismo de qualquer modo não me recordo e de qualquer modo (deixem passar) dei comigo acordado a pensar em Arthur Cravan, o poeta com os cabelos mais curtos do mundo, o boxeur que a 23 de Abril de 1916, em Espanha, desafiou o pugilista americano Jack Johnson, campeão do mundo de pesados, sendo batido por K.O ao primeiro assalto. Cravan fugiu e pediu desculpa ao americano, continuando a fugir até desaparecer algures no Golfo do México, antes disso terá sido ainda professor de educação física. Diz que a sua mulher o terá procurado em todas as prisões e em todos os países do mundo. Pensava em Cravan e pensava em Cendrars, Blaise Cendrars imbuído de uma espécie de vadiagem universal, escrevendo com a mão esquerda, a única que lhe restava depois da guerra, onde estaria Cendrars a 23 de Abril de 1916, quando Cravan é batido por K.O?, onde andaria Cendrars por alturas do desaparecimento de Cravan, algures no Golfo de México?, teria alguma vez Cendrars se cruzado com Cravan fazendo-lhe a tal pergunta fatídica que fazia habitualmente aos seus amigos: estás pronto a morrer agora mesmo? Diz que o fim do mundo filmado pelo anjo N.-D terá sido escrito numa noite, acho bem provável que sim, Blaise era um bom mentalfémero, mas não consigo deixar de pensar em Cravan, nisso, e no que vou fazer para o caralho do almoço...

terça-feira, 30 de junho de 2015

dia nãos sei quantos à terça: el perro

Um dia escreveu assim William Carlos Williams (mais conhecido por WCw): Que a víbora espere sob/ as ervas daninhas / e a escrita / se faça de palavras, lentas e rápidas/ prontas ao ataque, aguardando pacientemente,/  em vigília. Enquanto a víbora espera sob as ervas daninhas, ou isso, vou ali ver da preparação do bacalhau no forno com tomate.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

dia não sei quantos à quinta: a assinar isto

mais à frente e tal o Thomas continua assim: a mão soberana chega até um ombro descaído e as articulações dos dedos ficaram imobilizadas pelo gesso; uma pena de ganso serviu para pôr fim à morte que pôs fim às palavras, isto, obviamente, em verso (por esta pata dinamitado), cujos caracteres se expõem numa edição bilingue da assírio daquelas merdosas que descolavam ao mesmo tempo que levantavam voo as poucas notas que tínhamos para pagar a aventura. E agora ferrar o galho na net, ler umas merdas, antecipar uma data de acontecimentos, pensar na almoçarada, que festim, escrever no e-mail: olha vê lá se estudas para ter(es) uma vida boa [risinhos], por fim, ir ver a demolição a frio da sociedade do espectáculo..

Dylan Thomas em flagrante delitro (deixa passar Fernando), com a tal mão soberana que (também) assina o tal papel

quinta-feira, 28 de maio de 2015

dia não sei quantos à quinta: aprender é preciso

Um dia, talvez entre um copito e outro de vinho, Omar Khayyam escreveu assim: medos de inferno, e esperanças de outro céu!.../ que a vida foge é toda a ciência que eu / pude aprender, e tudo o mais mentira. / A flor que foi é flor que já morreu.

terça-feira, 26 de maio de 2015

dia não sei quantos à terça: olhando a tristeza o sol com peneira

Numa noite qualquer, olhando com tristeza a lua, Li Po escreveu assim: Num vácuo de alma / sento-me e canto / e penso em ti / profundamente. / Não nos veremos. / O gozo é morto. / É indizível / a dor que está / no coração / do homem. Já... volto...

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

dia hoje não sei quantos sexta: aqui

Num daqueles estados d’alma caninos, talvez imaginando o rosto vulgar dos dias, escreveu assim Alexandre O’Neill: cão passageiro, cão estrito, / cão rasteiro cor de luva amarela, / apara-lápis, fraldiqueiro, /cão liquefeito, / cão estafado, /cão de gravata pendente, /cão de orelhas engomadas, / de remexido rabo ausente, /cão ululante, cão coruscante, /cão magro, tétrico, maldito, / a desfazer-se num ganido, / a refazer-se num latido, / cão disparado: cão aqui, / cão além, e sempre cão. / Cão marrado, preso a um fio de cheiro, /cão a esburgar o osso / essencial do dia a dia, /cão estouvado de alegria, /cão formal da poesia, / cão-soneto de ão-ão bem martelado, / cão moído de pancada / e condoído do dono, / cão: esfera do sono, /cão de pura invenção, / cão pré-fabricado, /cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,/ cão de olhos que afligem, /cão-problema... rematando com um sai depressa, ó cão, deste poema, querendo obviamente enviá-lo para além: o lugar onde, se pensa, existirá um diário junto a uma ladeira.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

dia não sei quantos 364: afinal de contas

Diz o Vian que a vida é como a dentadura / Primeiro nem nos damos conta / Contentamo-nos com mastigar / E depois de repente estraga-se / Dói a valer, cuidamos / Dela com dó sofrida / E para se achar a cura / É preciso arrancá-la, à vida. Diz ainda o Vian que não gostava de estourar.

[passeata pela manhã]

quinta-feira, 13 de junho de 2013

dia não sei quantos 343: desumanidade oxidada

Não sei o que quer dizer desumanidade oxidada, trata-se apenas do título de um poema apócrifo, e ainda por cima (por baixo também) um poema que nunca chegou a ser escrito (deixem passar), existindo apenas na minha cabeça, mais concretamente no meu cérebro (deixem passar) que como todos sabem é um supersistema de sistemas. Ora, esse poema não escrito está localizado (acho) no lobo frontal, melhor dizendo na zona pré-frontal do córtex, a páginas tantas a área do pensamento, resolução de cenas e concepção de planos para o futuro, sendo claro como os olhos daquela moça italiana, a Ornella Muti, que o caralho da memória também entra na jogatina. O que interessa aqui é que o poema não escrito intitulado desumanidade oxidada, está paredes meias (paredes meias com um grande rombo) com os planos e projectos para o futuro(?), o que obriga a raciocínios tremendamente custosos sobre o sujeito cuja pena redige estas linhas. Vivo, aparentemente, num mundo de projecções ilusórias e ilusórias projecções cuja redundância ilumina todo um parque temático. Um verdadeiro metatexto da realidade, de desenlace imprevisível, mas certamente temática de estudo alcovaótelevisivo (estudem). Posto isto, recordo um livro da estante antiga denominado O rato de aço inoxidável do qualquer coisa Harry Harrison, mas não me apetece lavrar uma resenha sobre o assunto.  



A moça italiana, por alturas do filme "La moglie più bella".






capa de "o rato de aço inoxidável", igual à que consta da estante antiga.

[este blogue é moderno e também tem imagens]

quinta-feira, 2 de maio de 2013

dia não sei quantos 301: no mesmo espaço


Entretanto…olha, pensei que hoje era segunda-feira, teria que reavivar a cena dos projectos, afinal é quinta, menos mal, dia de banho-maria até sexta, dia de adiamento (deixem passar) de projectos para segunda, a segunda seguinte. Em seguida, numa sequência cuja rotina muito deverá a contingências projectadas por espelhos, em que tudo se passa da mesma forma (de sempre) dando ao mesmo tempo a ilusão que estamos num camarote a assistir um concerto de música clássica, deu-me para martelar mais uma hora de cama até as articulações fazerem a dança do põe-te a pé. A dança do põe-te a pé é mais ou menos assim. Depois fui-me à poesia e li: Ambiente da casa, dos cafés, do bairro / que vejo e que percorro: ano após ano / Criei-te de alegrias e tristezas / de tantas circunstâncias, tantas coisas. / E já não és senão como te sinto. Isto tudo no mesmo espaço, uma cena Kavafi. 

quarta-feira, 24 de abril de 2013

dia não sei quantos 293: para um novo dia


Não estou calmo. Uma vez Manuel António Pina escreveu assim: Serei capaz / de não ter medo de nada, / nem de algumas palavras juntas? Estava aqui a pensar nisso...

sexta-feira, 15 de março de 2013

dia não sei quantos 253: miudezas


Um dia escreveu assim Walt Whitman: and as to you Life I reckon you are the leavings of many deaths.

[foda-se, já que não está tudo dito vou ter que ir ali]

domingo, 10 de março de 2013

dia não sei quantos 248: quando puderes


Se não podes fazer da vida o que tu queres, / tenta ao menos isto, / quando puderes: / não a disperses em mundanas cortesias, / em vã conversa, fúteis correrias. / Não a tornes banal à força de exibida, / e de mostrada muito em toda a parte / e a muita gente, / no vácuo dia-a-dia que é o deles / – até que seja em ti uma visita incómoda. Isto escreveu-o Cavafy.   

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

dia não sei quantos 176: o cão atesta esta história*


Neste caso é oficial: um tipo sai(u) da cama para logo voltar, está sol, entra pela janela, o tipo agradece, desenjoa com um chá preto e pão-de-ló a tiracolo [risinhos], agora mesmo terá acabado de ler um livro, terá manejado revistas, certamente pensou na vida, move-se agora com a placidez de um gato com alma de recluso, um gato geneticamente modificado, o verdadeiro dir-se-ia que o observa com carinho, sempre com ternura, já não está aqui quem falou, e segue a sua vida. Agora observamos claramente esse tipo ao computador, está a coçar-se sorrateiramente num local despropositado, tecla coisas mais ou menos com sentido, ainda agora teclou ainda agora. Esta cena, estes dias, o cenário, o tal cenário que faz lembrar o Dogville, o sonho que não é sonho, o desenho distorcido, estar fora e dentro, foda-se, não é que estou a ver alguém teclar, não é que estou a ver alguém teclar, mas em momentos distintos, mas em momentos distintos. O nada pelo menos é sincero.

[também respondeu a um anúncio, mas já foi ontem. Não sei se conta?]

[*sentado no meio da estrada/ mas de nós não há memória/ dos lados não ficou nada - disse o Mário]

terça-feira, 27 de novembro de 2012

dia não sei quantos 145: o tempo das estátuas


"O homem como o vento procurou / um buraco num tronco para a noite. / Ouviu o mocho, o noitibó, o sapo. / Viu as estrelas a mudarem de lugar. / Pressentiu o saca-rabos, a raposa. / E descobriu, assustado: estou aqui". Isto escreveu-o Jorge Guimarães.