quarta-feira, 8 de maio de 2013

dia não sei quantos 307: também digo


É que os livros são por caso o único artigo em que sou mais rico que os meus vizinhos, escreveu um dia De Quincey, [na sua introdução aos tormentos do ópio], estava eu a ler isto, pausadamente, mas carregando uma irritação cujo canastro media forças com uma daquelas grandes penedias que se podem observar no Gerês, quando escutei: e olha onde isso te levou. Lá fora um pássaro cantarolava protestando uma felicidade sólida pese um céu plúmbeo, [estava a ver que não conseguia meter esta aqui] fechei a porta e por momentos, apenas uns breves instantes, um sorriso mordeu a minha face. Depois fiquei a ruminar o biscate técnico. 

terça-feira, 7 de maio de 2013

dia não sei quantos 306: reavaliação do produto


Amanheceu cedo para estes lados: abandonei o beiral soturno e fui-me a um chá verde com torradas feitas naquele pão que chega embalado dentro de um saco, como os putos transportados pelas cegonhas, devidamente fatiado, homogéneo e com a genética toda fodida, chama-se pão, alguns dizem que é rico outros meio bimbalhado, mas no final o que conta é a manteiga, tem que ser manteiga. Encaixei seguidamente a fronha no reservatório de informação literalmente (in)dispensável, respondi a dois anúncios de (des)emprego, carta de representação, vitae fortíssimo, aiaiai quem escorrega também cai, pensei em reavaliar o vitae em grande, urdir informação, ser criativo, empreender merdas ao mesmo tempo que vou inventando a informação a expensas da criatividade, quando a páginas tantas cheguei ao sushi cycle, ou isso. A partir desse momento nunca mais fui o mesmo, pelo menos até agora, e já passaram umas duas horas ou mais.
                                                                                                  




verymotivationalaiaiai

segunda-feira, 6 de maio de 2013

dia não sei quantos 305: vai de balada


Todas as semanas, não, toda a semana de segunda a sexta como dizia um amigo do Cão, um amigo perdido já na penumbra da memória, toda a semana de segunda a sexta (deixem passar, o amigo iria gostar) sinto os dias um a um, já começo a estar naquela fase da época em que a estática se confunde com o altifalante do vizinho e começas a sentir as horas, uma a uma, depois já se sabe, começas a sentir os minutos um a um e logo a seguir o caralho dos segundos um a um, e já não fazes outra coisa senão sentir, às tantas estás a ouvir cada batida do coração, tumtumtum, uma a uma, e os dias tornam-se merdas que te entram pelos olhos dentro e acabas por ser uma personagem da tua vida vivida e sopesada (um dia deste faço parágrafo, não se preocupem) em que te vês de fora e fazes parte do elenco, os olhos abertos, sempre abertos, como aquela cena do Laranja Mecânica, até que essas imagens te metamorfoseiam numa cena parecida contigo mas sentigo, como diria o João Pinto. Não sei se ainda estou naquela cena da semana de segunda a sexta ou se já tirei bilhete para contar as horas, mas sei que tenho de fazer alguma coisa para que os dias sejam aquilo que sempre foram: dias, ao calhas, eles estão lá mas tu não tens nada com isso, vives e acabou.    

domingo, 5 de maio de 2013

dia não sei quantos 304: não esquecer

[aconteça o que acontecer nunca desistir, antes quebrar que torcer; o conselho em forma de enigma do Nietzsche: Se queres que a corda não se parta, então, primeiro rói-a.]

sábado, 4 de maio de 2013

dia não sei quantos 303: compreendido!


Estava a pensar nisso, ainda agora um flash no reminiscênciamortatv (às vezes vejo cenas do catano no reminiscênciamortatv), aquela conversa do Vasco Santana com o (filho) Ribeirinho no Pátio das Cantigas, isto após a cena do candeeiro, o Vasco pede-lhe para não lhe ralhar, que está doentinho, que passou mal, e isto e aquilo, o Ribeirinho diz que o pai é um menino, que tem de fazer isto e aquilo (deixem passar) e às tantas o Vasco diz: não quero aprender mais nada, com um ar malandro de deixa-me estar, ao mesmo tempo português como tudo e ao mesmo tempo completamente extraterrestre como tudo, uma frase lápide (não confundir com lapidar) cujo conteúdo é um autêntico himalaia de ruminações possíveis. Entretanto estive a ler uma cena qualquer do Llosa e outra do Lipovetsky, agora vou ver da sopa e do post-it de ontem.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

dia não sei quantos 302: post-it


- Adiar alguns projectos para a segunda [mas quais projectos?];
- Ver como alimentar o biscate técnico não o deixando chegar ao tutano;
- Dar umas voltas, flanar, espairecer a mona;
- Ver os classificados e os desclassificados em vários formatos;
- Aproveitar a deixa e ler mais merdas, mesmo bulas de medicamento;
- Fazer uma auditoria de gestão para apurar cenas;
-Fazer um levantamento dos últimos projectos e seu estado de putrefacção [independentemente da primeira alínea];
- Listagem de telefonemas e cenas importantes para a próxima semana [importante]; 
- Pensar numa vida mais disciplinada e desportiva(?) com menos fumarada, ou isso;
- Começar uma ode à vida em verso livre de todas as contingências que a possam minar na sua alegria intrínseca e na sua virtude, ou ausência desta;
- Preparar e temperar o coelho para o jantar [uma homenagem ao bicho e ao paladar];

E é já…


[és um smith?]

Imagens do coelho ainda não disponíveis, mas já estamos em contacto com vários artistas nesse sentido, a arte acima de tudo. Agora vou ali comer uma torrada que me esqueci. 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

dia não sei quantos 301: no mesmo espaço


Entretanto…olha, pensei que hoje era segunda-feira, teria que reavivar a cena dos projectos, afinal é quinta, menos mal, dia de banho-maria até sexta, dia de adiamento (deixem passar) de projectos para segunda, a segunda seguinte. Em seguida, numa sequência cuja rotina muito deverá a contingências projectadas por espelhos, em que tudo se passa da mesma forma (de sempre) dando ao mesmo tempo a ilusão que estamos num camarote a assistir um concerto de música clássica, deu-me para martelar mais uma hora de cama até as articulações fazerem a dança do põe-te a pé. A dança do põe-te a pé é mais ou menos assim. Depois fui-me à poesia e li: Ambiente da casa, dos cafés, do bairro / que vejo e que percorro: ano após ano / Criei-te de alegrias e tristezas / de tantas circunstâncias, tantas coisas. / E já não és senão como te sinto. Isto tudo no mesmo espaço, uma cena Kavafi. 

quarta-feira, 1 de maio de 2013

dia não sei quantos 300: a estiva e o princípio da estiva


Estava a ver que não, ó pá tive que ir ao mar, passei na praia, espanquem-me, teve que ser, ó pá espanquem-me, tinha ficado a pensar na sílica, nos minerais, nos bichos mortos, nas pedrinhas, lembrei-me logo dos passeios do Beckett na Irlanda, caminhadas em terra e no mar, nadadelas, depois tive que me fazer a um hambúrguer fatela, o sol a bater, mas do árabe do Camus nem sombras, uma cerveja fresca, rochas, pedra, o mar por ali dentro. Mas como um dia escreveu Beckett, não basta numerar as pedras, e sentado na areia (seria Molloy?), diante do mar, as pedras espalhadas, contemplava-as com raiva e perplexidade, pensando quando poderia atingir os seus objectivos, sem aumentar o número de bolsos, nem reduzir o das pedras, simplesmente sacrificando-se ao princípio da estiva. Depois explico.