sexta-feira, 30 de novembro de 2012

dia não sei quantos 148: contagem (de)crescente


Fechar a mala em silêncio, ou, três dias a fechar a mala em silêncio, subindo e descendo a ladeira, três dias ao nada, três dias ou quase, ao nada, que é tudo, é tudo!, torrada pão tormento chá, ladeira, senha sonho susto… ladeira, onde estão as respostas?... ladeira, tabuleiro, comida?, senha quarto, ladeira. Agora vamos fazer coisas. Depois: ladeira. E depois já será noite. Entretanto [risos], faço colagens mentais a dar para o torto, planto cenas imaginárias em vasos imaginários, e, às vezes, durmo como uma pedra, um ser inanimado na sua plenitude, ou isso. Olha, apetece-me é emborcar umas cervejas…

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

dia não sei quantos 147: caos calmo [ou, calmo o caralho!]


Estou a tentar submeter o pensamento indexando-o apenas a determinada acção, remetendo para estímulos previamente programados, ou previstos, e ainda agora queria escrever: debalde. Mas com estímulos não se brinca. Não paro: apreendo a imensidão efémera de cada momento (também pode ser segundo). 

[que dia é hoje afinal?]

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

dia não sei quantos 146: ninharias


["assim é na mala da nossa vida: metemos lá tudo, só para que não haja um espaço vazio". 
Escreveu Turguéniev.]

terça-feira, 27 de novembro de 2012

dia não sei quantos 145: o tempo das estátuas


"O homem como o vento procurou / um buraco num tronco para a noite. / Ouviu o mocho, o noitibó, o sapo. / Viu as estrelas a mudarem de lugar. / Pressentiu o saca-rabos, a raposa. / E descobriu, assustado: estou aqui". Isto escreveu-o Jorge Guimarães. 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

dia não sei quantos 144: alerta-me isso


Nada mais estimulante do que os alertas matinais, alertas esses que superam em cor e brilho qualquer alerta da protecção civil e seus derivados, ou isso, este último pode ser laranja, pode ser amarelo, pode ser vermelho, já ninguém distingue a cena da outra cena, vivemos aos poucos a brincar aos alertas e completamente daltónicos funcionais relativamente a esses alertas (pó caralho com os redundâncias), já ninguém quer saber dos alertas que não servem para alertar, e um dias destes a coisa fica complicada e um tipo fica à mesa a acabar os finos ou as imperiais, conforme a situação geográfica, enquanto tudo se desmorona. Não foi o caso. Este alerta matinal, cuja cor não se conseguia definir a olho nu, acoplado a um telemóvel, despontou inexoravelmente o regaço de um braço e respectiva mão, a princípio terá sido apenas uma mão, depois assomou um corpo, ainda não eram a nove horas e já esse corpo desenjoava com o prazer único do paralelepípedo quando devidamente calcado pela roda de um automóvel de alta cilindrada, e ainda não seriam as nove e meia e já esse corpo galgava o monte a norte da sua casota rumo ao objectivo: acompanhar alguém a uma determinada unidade hospitalar. Mas primeiro impunha-se encontrar esse alguém, cá fora, entretanto o sol ora brincava aos alertas de cores garridas, ora aos cinzentos sombreados por nuvens de tipo Cumulos, ou isso, e não seriam mais de dez horas quando o objectivo número um foi atingido. Depois, já se sabe, nunca é fácil.

[mais tarde fui correr]

domingo, 25 de novembro de 2012

dia não sei quantos 143: horário normal de abertura


Entretanto, o carteiro terá tocado duas vezes, seguindo as deixas de James M. Cain, entretanto: ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz, entretanto, "há duas maneiras de chegar a casa; uma delas é não chegar a sair", foda-se lá aquela cena do Chesterton, do homem eterno, mas o melhor é não continuar a ler o livro, estas duas frases triunfam sobre qualquer desistência.

[Auster, the end, glass]

sábado, 24 de novembro de 2012

dia não sei quantos 142: aparente especialista em estranheza


Isso já vem de ontem, a cena do Menino, um conto do Vila-Matas nos Exploradores do Abismo, deu-me para reler aquilo, a antessala do vazio, mas também o mercadejar das angústias, ou isso, coisa com pano para mangas, capaz de nos por a andar horas a fio pela cidade, penso que no campo o efeito será o mesmo, estava a ruminar tudo bem ruminado, quando a manhã (isto já foi hoje) entrou pela janela, as frinchas de luz peneiradas pelos estores insinuavam gotículas de chuva, foda-se, pensei, esta merda está cheia de poesia, logo o pensei assim o disse em voz alta, esta merda está cheia de poesia, e ala que se faz tarde para o desenjoo. Entretanto, viajo por florestas Laurissilva, o que é uma redundância, a internet é assim, ruas com mar nas bordas, janelas que não servem (apenas) para o suicídio. Nunca se deve mercadejar com as angústias. 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

dia não sei quantos 141: o treina(r) [a] dor apenas não chega


Era uma vez um jogo de futebol entre uma equipa totalmente inexistente (não confundir com a inexistência do Cavaleiro Inexistente do Calvino), e uma equipa de relógios suíços de fancaria iguais àqueles que o Primo marroquino vende na praia de Buarcos em Agosto. A equipa de relógios suíços de fancaria iguais àqueles que o Primo marroquino vende na praia de Buarcos em Agosto, às vezes, transformava-se numa equipa inexistente, mas ainda assim não tão inexistente como a equipa totalmente inexistente, cuja inexistência congénita resulta numa atitude filosófica perante o jogo sem qualquer transigência.  Ganhou naturalmente a equipa de relógios suíços de fancaria iguais àqueles que o Primo marroquino vende na praia de Buarcos em Agosto, a qual às vezes também é uma equipa inexistente, por três bolas a zero, sendo que a equipa totalmente inexistente fez jus ao nome e as bolas atravessavam-na sem qualquer fricção. Seriam quase vinte horas da noite e fui tratar do porco grelhado com arroz de legumes, salada e um tinto manhoso a acompanhar, de existência comprovada.