quinta-feira, 16 de maio de 2013

dia não sei quantos 315: o projecto é alienar toda a gentezzz


Zzz:
a culpa poderá ser do queixume, inibindo a capacidade para meditar no problema, amiúde as causas revelam-se ao mesmo tempo consequências, com os resultados que se conhecem, sobretudo nesse monopólio de afectos que reportam apenas ao jogo da bola com os pés, vulgo clubismo dos outros, repare-se que nem sempre as amostras revelam a sabedoria do todo, repare-se ainda na beleza de outros jogos em a que a bola se joga com as manápulas, mais belo?, certamente mais fácil, não lembra ao diabo a bola jogada com os pés, a não ser a esses vilipendiadores gourmet, vulgo canibais, e outros que tais (embora com carnes diferentes) na planície do grande Khan que jogavam com cabeças, mas alguns iam a cavalo. Posto isto, merdas que nos compõem a ordem cerebral, celebra o Citati que: a fantasia dos artífices nómadas gosta de grupos, de combinações, de densas e inextricáveis composições de massas. Trata-se do génio animalista dos Citas. Por exemplo.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

dia não sei quantos 314: não importa qual


Mesmo cheiinha a alegria é boa. Acabadinha de chegar, fresquinha. Dei comigo a pensar nisso logo pela manhã. Nove horas e quinze minutos (juro!) já estava a remoer a lição da aula anterior, não quero aprender mais nada – diz o Vasco Santana –, já estava a repensar as tácticas para a época seguinte enquanto a persiana oferecia apenas duas alvíssaras à luz. Está mais frio, devo ter pensado prosaicamente. Deu-me depois para ler e para escrever no notebook, no caderninho vermelho (apenas suporto o vermelho em cadernos), gosto muito mais de escrever à mão, com a caneta (e a lápis e a esferográfica), gosto do cheiro a papel, embora o papel de hoje mais das vezes não cheire a nada, é asséptico, mas este tem cheiro, tem solidez, gosto da mistura do cheiro do papel com o cheiro (deixem passar) a tinta ou a grafite, gosto do cheiro dos livros misturado com o cheiro do chá, melhor do que isso só cheirar o silêncio das catedrais e de algumas igrejas pequeninas, românicas, despidas ainda do frenesim gótico e por aí fora até ao barroco. A páginas tantas terei tomado de golada algumas decisões, ia a manhã alta, fresquinha, acabadinha de me receber sem grandes interpelações, o Cão já a sair (agora estou fora de mim, deixem passar), aperta o casaco, desce a ladeira, desta vez com uma direcção. Não importa qual.  

terça-feira, 14 de maio de 2013

dia não sei quantos 313: a mancar da cabeça


Hoje não carrego nenhuma muleta literária sociológico filosófica, um amigo do Cão costumava (ainda o fará?) carregar a muleta da sede, muito proveitosa para naufragar, às vezes ainda escutávamos as borbulhas do naufrágio enquanto andávamos sem destino nenhum. Não, tardo… e trago o tédio da ausência de trabalho, da degenerescência da disciplina, diferente daquele tédio literário, o L’ennui, ou isso, acho até que este tédio tem cor, é branco, escorre como plumas brancas pelas paredes, muito conveniente para nos enlouquecer. Recuso-me, leio, vou correr, não vou correr, vou flanar, esgaço uns biscates técnico, onde estão os biscates técnicos?, bebo umas cervejas, por falar nisso, também posso fazer outras coisas, o Cão já fez tantas coisas nas vida, recuso-me, tanto afastar esse rumo ao bolor, sinto saudades dessa elegância da alegria. Mesmo cheiinha a alegria é boa. 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

dia não sei quantos 312: a curva opulenta dos sentidos [risinhos]


…Tivemos que modificar o conteúdo desta posta já com a vertigem da última hora. Não explico. Isto é, o Cão esqueceu aquele início enigmático sentido por volta das dez horas e picos da manhã, o mesmo início enigmático que ele julgou que se recordaria mais tarde, isto após uma transumância de pensamentos, após o desenjoo e da corrida com fôlego de passeata, da volta da ida, da ladeira, o Cão saberia com certeza dar a devida sequência àquela ideia. Sucede que o Cão não se recorda nem vagamente da puta da ideia, da coisa, da cena, teria sonhado? Para mantermos o nível das postas, tivemos que recorrer ao George Steiner que escreveu: se fitarmos o medonho com demasiada insistência, acabamos por nos sentir insolitamente atraídos pelo medonho. Obviamente que isto serve para outros fitos e outras observações (deixem passar), mas o título do ensaio é lindo em qualquer lado, chama-se “No castelo do Barba Azul – algumas notas para a redefinição da cultura”. Estamos salvos.

domingo, 12 de maio de 2013

dia não sei quantos 311: conquistai as profundidades a ironia não desce aí*


Era para ser um ZZzzztónico com cama de gelo e limão, mas depois pensei no jogo, nesse disputadíssimo jogo de uma vida ontem com o olhamestes de Olhão, soletrei mentalmente pedaços de toda a competição ou ausência desta e cheguei a uma frase do Vila-Matas: a ironia é a mais elevada forma de sinceridade

[*escreveu um dia o Rainer Maria Rilke]

sábado, 11 de maio de 2013

dia não sei quantos 310: o desafio, perdão, o vazio opaco (deixem passar)


Comecei por pensar nisso: as possibilidades. Encontrava-me refastelado na cama e as possibilidades por ali andavam, uma, duas, três, quatro, cinco bem vistas as coisas, cada uma isoladamente (deixem passar) assemelhava-se estranhamente à peça de um puzzle, mas não seria de todo correcto observá-las à luz puzzleniana de um Peret ( a cena do desafio opaco), porque cada uma destas projectava um caminho independente das outras, independente até do conjunto. Pareceu-me. Estranhamente, neste caso, o todo (seria o todo um conjunto de peças?) desfazendo-se não se configurava em nenhuma das peças, quer dizer, das possibilidades. Foda-se, ou o puzzle está mal feito ou nunca existiu. Inclino-me até cair para a segunda hipótese.Entretanto, antes de ir à mercearia, estive a ler esta carta. Parece-me que o país do Cão é uma daquelas fotografias postais, pôr-do-sol, contraluz, linha do horizonte, cliché, antes fosse uma fotocópia a preto e branco, ou um reflexo embaciado ao espelho, mas com menos vazio lá dentro. 

sexta-feira, 10 de maio de 2013

dia não sei quantos 309: ponto alto do dia


Fui correr. E ver do jornal da forma esquisita do costume.

[na volta, um gato pequeno de roupagem listada tentava afiambrar um pássaro, gorados os seus intentos, a medida eficaz que arranjou para disfarçar foi bambolear-se ostensivamente, desenhando sinuosidades de trazer por casa, e à minha passagem não se quis pronunciar, falei-lhe do Incrível, cheirou-me em jeito de cumprimento, assim, com o focinho levantado fazendo um ligeiro arco]. 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

dia não sei quantos 308: o olhar pensado


Entretanto fiz copy paste de mim mesmo e fiquei  a olhar-me  a subir a ladeira, na primeira curva à esquerda a coisa ainda foi, depois pumba subida à direita, eu que observava o meu copy paste nessa segunda curva à direita com subida fiquei orgulhoso da impetuosidade daquele elemento anatómico que, formando um conjunto aparentemente sólido, criava sinuosidades muito fodidas no meu olhar, mas mantive a calma e a receptividade. Na recta da minha meta visual, o conjunto aparentemente sólido daquele elemento anatómico ficou parado a fazer uma espécie de transbordo de pensamentos, não hesitei e nesse momento tive que roubar parte do olhar do meu copy paste (é possível hoje em dia) e parte da mioleira que regista as merdas vistas pelos olhos do elemento anatómico, aquele mesmo que agora se deparava com uma unidade de cuidados de saúde maior que o campo de batatas com hortaliças do Paços de Ferreira. O elemento anatómico estacou.  Pensava (eu podia ver isso), naquela gente toda a entrar e a sair daquele corpo que cuida de corpos, unidades anatómicas fodidas, algumas acompanhadas de unidades anatómicas aparentemente em bom estado (mas por quanto tempo?), ao mesmo tempo que pensava no jogo (como seria possível?) do passado fim-de-semana num campo de batatas com hortaliças. O conjunto deste olhar pensado não era nada bonito. Após a descida não trocamos grandes impressões.