segunda-feira, 20 de maio de 2013

dia não sei quantos 319: o mundo não está feito


Acordei assim e acordei assado, depois abri as persianas e fiquei em banho-maria. Deu-me para ler enquanto aquecia a água para o chá, recordei Hemingway em “O velho e o mar”, o homem não foi feito para a derrota, pode ser destroçado, mas não derrotado, estava a ler outras merdas mas lembrei-me de imediato de Primo Levi, e a páginas tantas escrevi qualquer coisa no caderninho vermelho. Lerpei o chá verde e fui-me a uma torrada em pão de ontem daqueles pães à la minute, ainda não vi o caralho dos golos de ontem do Sporting – terei pensado, enquanto me arrastava nem derrotado nem despedaçado, algo de intermédio, pilar da ponte de tédio (deixa passar Mário). Entretanto acabei a limpeza da casota, duchei, agora acho que vou latir para outra freguesia, nem tanto ao mar nem tanto à terra. 

sábado, 18 de maio de 2013

dia não sei quantos 317: um imenso nada


Após dez horas e picos de sono contínuo… continuei (deixem passar) a dormir acordado durante pelo menos mais trinta e cinco minutos, o que perfaz umas boas onze horas de sono mais ou menos, acto seguido deu-me para ler uma merdas enquanto acordava, tudo somado umas boas doze horas já a contar com o pequeno-almoço encaixado (risinhos). Doze horas já foram – terei pensado, enquanto me recusava na plenitude dos meus direitos a acordar completamente para o mundo, isto já agrupado aos backups que fazia por obra e graça de automatismos que concorrem diariamente para a perda de informação, são pastas sobre pastas, localizações a informarem de localizações, pastas que contêm elementos supostamente indicativos de outros elementos localizados noutras pastas, caderninhos expostos aos elementos, outros caderninhos explicando a exposição dos caderninhos expostos aos elementos, ou o caralho, tudo somado, um imenso nada. Não tarda estarei a merdar na mercearia, parece que é preciso leite.  

sexta-feira, 17 de maio de 2013

dia não sei quantos 316: o longe possível


Por falar em boas latidas, deu-me para bater o território à chuva, latindo in the rain, por assim dizer, fui-me ao longe possível e depois dei a volta, um cão pode fazer isto durante horas observando as unidades anatómicas humanas ora a correr para apanhar o autocarro ora a correr para não apanhar o autocarro, ora a caminhar abanando os braços, não, não, isso fica para mais logo, algumas unidades anatómicas não levantam a peida para nada e depois vão caminhar abanando os bracinhos, ou o caralho. Mas não senti nojo, os cães ao contrário das unidades anatómicas humanas não sentem nojo e até ficam de certa forma admirados com a aquela expressão humana: até metes nojo aos cães, porque isso não é de todo possível, embora se registem mudanças genéticas significativas em alguns cães, denominadas (por mim) de genética de recluso, isto é, estão cada vez mais humanos, mas ainda assim não demasiado humanos no sentido que o Nietzsche descreveu com segurança. Bom, vou ver da rádio pirata, mas como hoje é sexta devo adiar o projecto para segunda. Até. 

quinta-feira, 16 de maio de 2013

dia não sei quantos 315: o projecto é alienar toda a gentezzz


Zzz:
a culpa poderá ser do queixume, inibindo a capacidade para meditar no problema, amiúde as causas revelam-se ao mesmo tempo consequências, com os resultados que se conhecem, sobretudo nesse monopólio de afectos que reportam apenas ao jogo da bola com os pés, vulgo clubismo dos outros, repare-se que nem sempre as amostras revelam a sabedoria do todo, repare-se ainda na beleza de outros jogos em a que a bola se joga com as manápulas, mais belo?, certamente mais fácil, não lembra ao diabo a bola jogada com os pés, a não ser a esses vilipendiadores gourmet, vulgo canibais, e outros que tais (embora com carnes diferentes) na planície do grande Khan que jogavam com cabeças, mas alguns iam a cavalo. Posto isto, merdas que nos compõem a ordem cerebral, celebra o Citati que: a fantasia dos artífices nómadas gosta de grupos, de combinações, de densas e inextricáveis composições de massas. Trata-se do génio animalista dos Citas. Por exemplo.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

dia não sei quantos 314: não importa qual


Mesmo cheiinha a alegria é boa. Acabadinha de chegar, fresquinha. Dei comigo a pensar nisso logo pela manhã. Nove horas e quinze minutos (juro!) já estava a remoer a lição da aula anterior, não quero aprender mais nada – diz o Vasco Santana –, já estava a repensar as tácticas para a época seguinte enquanto a persiana oferecia apenas duas alvíssaras à luz. Está mais frio, devo ter pensado prosaicamente. Deu-me depois para ler e para escrever no notebook, no caderninho vermelho (apenas suporto o vermelho em cadernos), gosto muito mais de escrever à mão, com a caneta (e a lápis e a esferográfica), gosto do cheiro a papel, embora o papel de hoje mais das vezes não cheire a nada, é asséptico, mas este tem cheiro, tem solidez, gosto da mistura do cheiro do papel com o cheiro (deixem passar) a tinta ou a grafite, gosto do cheiro dos livros misturado com o cheiro do chá, melhor do que isso só cheirar o silêncio das catedrais e de algumas igrejas pequeninas, românicas, despidas ainda do frenesim gótico e por aí fora até ao barroco. A páginas tantas terei tomado de golada algumas decisões, ia a manhã alta, fresquinha, acabadinha de me receber sem grandes interpelações, o Cão já a sair (agora estou fora de mim, deixem passar), aperta o casaco, desce a ladeira, desta vez com uma direcção. Não importa qual.  

terça-feira, 14 de maio de 2013

dia não sei quantos 313: a mancar da cabeça


Hoje não carrego nenhuma muleta literária sociológico filosófica, um amigo do Cão costumava (ainda o fará?) carregar a muleta da sede, muito proveitosa para naufragar, às vezes ainda escutávamos as borbulhas do naufrágio enquanto andávamos sem destino nenhum. Não, tardo… e trago o tédio da ausência de trabalho, da degenerescência da disciplina, diferente daquele tédio literário, o L’ennui, ou isso, acho até que este tédio tem cor, é branco, escorre como plumas brancas pelas paredes, muito conveniente para nos enlouquecer. Recuso-me, leio, vou correr, não vou correr, vou flanar, esgaço uns biscates técnico, onde estão os biscates técnicos?, bebo umas cervejas, por falar nisso, também posso fazer outras coisas, o Cão já fez tantas coisas nas vida, recuso-me, tanto afastar esse rumo ao bolor, sinto saudades dessa elegância da alegria. Mesmo cheiinha a alegria é boa. 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

dia não sei quantos 312: a curva opulenta dos sentidos [risinhos]


…Tivemos que modificar o conteúdo desta posta já com a vertigem da última hora. Não explico. Isto é, o Cão esqueceu aquele início enigmático sentido por volta das dez horas e picos da manhã, o mesmo início enigmático que ele julgou que se recordaria mais tarde, isto após uma transumância de pensamentos, após o desenjoo e da corrida com fôlego de passeata, da volta da ida, da ladeira, o Cão saberia com certeza dar a devida sequência àquela ideia. Sucede que o Cão não se recorda nem vagamente da puta da ideia, da coisa, da cena, teria sonhado? Para mantermos o nível das postas, tivemos que recorrer ao George Steiner que escreveu: se fitarmos o medonho com demasiada insistência, acabamos por nos sentir insolitamente atraídos pelo medonho. Obviamente que isto serve para outros fitos e outras observações (deixem passar), mas o título do ensaio é lindo em qualquer lado, chama-se “No castelo do Barba Azul – algumas notas para a redefinição da cultura”. Estamos salvos.