Naturalmente, preencher o formulário, esvair-me
a correr em sonhos, evitar olhar em frente o meu espelho, entrar gratuitamente no emaranhado de vozes que
calcorream os caminhos do meu cérebro. Quero: deixar de escrever a palavra cérebro, deixar de escrever ribanceira, deixar de programar a minha
loucura, deixar de escrever tipo-cão
e passar apenas a cãotipo, evitar a extinção dos estaleiros navais de Viana do
Castelo, lutar na luta (deixem passar), evitar a extinção dos ouriços cacheiros
a norte do rio Douro (por exemplo) e ir correr de uma vez por todas.
Nomeadamente, preencher o formulário, esvair-me...disponível em podcast para o
mundo todo, evitar lançar uma marca de roupa com um animal como símbolo, entrar
gratuitamente em todos os estádios e pavilhões onde jogue o Sporting. Quero:
conhecer ainda mais literatura da América Latina, perdoar-me por nunca ter
posto os pés na América Latina, pôr os pés na América Latina, viajar num
submarino português sonhado pelo Júlio primo do Verne. Quero: deixar crescer o
pêlo, a voz, a amargura (deixem passar), o prazer, para que floresçam outras
merdas igualmente importantes para a felicidade. Quero deixar os dois pontinhos
para trás e assinalar um novo quero. Posto
isto, fica assim.
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
quarta-feira, 6 de agosto de 2014
adi onã esi quosant qutara: merdas assim
As merdas assim continua(ra)m a tamborilar na
cabeça, supremos tátatárataraaaa tarataa
ta despejados aos trambolhões, congeminando novas angústias. Bom dia.
Parece que hoje isto vaifor (deixem
passar): apagar as luzes, ver das torneiras, desamarrar o cérebro dos pés da
cama, olha o gás, que fique tudo na penumbra, volta atrás, a tostadeira em cima
do ombro, vozes guardadas a troco de umas chaves que abrem (supostamente) esse
armário de vozes onde porventura se localiza a tostadeira, ali ao elevador.
Recomeçar, pela boca morre o peixe, correr para a farmácia, botar remédio,
voltar atrás, correr junto ao be aware
do Miller, dar de barato a custódia destes momentos a quem passe: alguém quer
esta merda? Pensas que a vida é um mar de rosas?...mas o que é um mar de rosas,
caralho? Alguém viu alguma vez um mar de rosas? E a cada metáfora um carrinho
de rolamentos numa ribanceira e vai. Não chateies ninguém!
quarta-feira, 30 de julho de 2014
dia não sei quantos e tal quarta: a pasta está vazia
Consta que me levantei. Que fui duchar. Que
depois bebi um chá preto com bolo de noz. Diz que a seguir apanhei o elevador,
que também se apanham elevadores como doenças más, diz que me doía a cabeça,
que e náusea fazia ninho e que os restos da noite não saiam com nenhuma sacudidela.
Para entrar no carro diz que abri a porta, mas nunca se sabe. Do rés-do-chão,
ali ao pé, já ressumava um cheiro a estrugido para ajudar à festa, conforme
está comprovado. Em todo este trajecto diz que não tomei nada. Entretanto,
consta que me deu para pensar em merdas:
a cena de ontem
a cena de anteontem
há quanto tempo não vou correr?
E livros novos e leituras, que seja?
E discos?
Que passeatas?
A cena do catálogo de rotinas que desagua nas
ditas...
em que rua fica, este ano, o mar?
Que bebidas espirituosas não são alcoólicas e vice-versa??
será que se pode comer pizza de faca e garfo à
mesa da cozinha, sem televisão?
será que se pode comer pizza com salada de
tomate (daqueles tomates verdadeiros) de faca e garfo, sentado no sofá a ver a
guerra dos tronos?
Merdas assim...
domingo, 27 de julho de 2014
dia não si quantozzzzzzzzzzzz: mas afinal que dia é hoje?
Conheci (ou imaginei, tanto faz) um tipo que
também era cão, um tipo-cão, um tipo (deixem passar) que fazia um dossier da
vida, encapava-a, jornais, revistas, pensamentos, livros, gastos, merdas que
queria fazer e não fazia, merdas que fazia e não queria fazer, comida que
gostava de malhar, tipas-cão, dias de sol à paisana, ventos que lhe recordavam
os seus cabelos, viagens adiadas, viagens vividas e desperdiçadas em
conversetas, viagens recortadas em suplementos de jornais, filmes, músicas, rosnadelas,
frutos diversos, os vários tipos de medo. Queria conferir a morte, o
envelhecimento, queria ter a certeza que o esquecimento não o precedia, queria
estar preparado para dizer não, escutar o não,
queria fundamentalmente não tomar isto a sério, um somatório de contradições,
dizia – é só confirmar. O dossier crescia a olhos vistos até se confundir com a
própria vida (aqui recorremos a Borges atravessando o rio num tronco finíssimo),
devidamente encadernada e colocada em estantes, em prateleiras, em bibliotecas,
em salas de estar, em nichos suspensos nas árvores e até em grutas cujo nível
de humidade era devidamente controlado. Aos poucos, o dossier em curso
dir-se-ia em tudo semelhante à vida, e o próprio vocábulo dossier era utilizado para dizer vida. Recordo o tipo-cão, não estarei enganado se afirmar que era
um belo dia de Julho, uma terça-feira de manhã, em tudo igual aos outros dias,
o tipo-cão tinha acabado de ler e catalogar, à socapa, um texto merdoso cujas lincadelas
pareciam afluentes do Nilo, olhou em redor para ver se não estava a ser
observado, a filmantes carburava, mas ele parecia estar mesmo a trabalhar, lá
se levantou vagueando o seu tédio pensativo pelo escritório, aguardava uma má
notícia a qualquer hora, e qualquer hora deixa de servir como uma boa hora para
uma má notícia que não chega, ou isso, o seu cérebro pós-texto e
pós-últimas-merdas-dos-últimos-tempos, assemelhava-se a uma daquelas
instalações pós-modernas que nos enrabam o olhar em alguns museus, mas neste
caso não fazendo qualquer sentido até para o próprio, obrigando-o a tomar
resoluções baseadas em folhas dispersas, rasgadas ao acaso, ou impressas em
pequeníssimos núcleos semelhantes a ilhas, uma caligrafia pequenina à Walser
ia-se infiltrando até ao último dos ácaros, talvez procurando desaparecer. Nesse
momento algo terá mudado. Mas não se sabe bem o quê.
domingo, 13 de julho de 2014
dia não sei quantos ognimod siod: questiúnculas
Estava a ultimar a minha entrevista ao Vilamatinhas e a
minha entrevista imaginária ao Ludwig, estava por assim dizer a amassar o pão
para alimentar o cérebro, nisto (não se iludam com o tempo verbal, antes
retenham a expressão vernacular), a biblioteca estantina fez-me chegar em mão
uma cena do Allègre (o Claude, não confundir pf com o Nel) quando este afirma
que “vamos começar por expor a hipótese da nebulosa protossolar quente”, hipótese
falsa, para não dizer mais, segundo Claude, com consequências invisíveis na
vida das pessoas, mesmo das pessoas reais, a gente não seja cão se não nos dá para
pensar na auscultação pulmonar do planeta terra, culminado em duas questões:
-Porquê a utilização de parágrafos tão Longos e desconexos?
-Mesmo observando um passado cada vez mais recuado,
conseguiremos não perder tempo, ou mesmo perder tempo, com conhecimentos que embatem no reposteiro de
roupagem religiosa?
Assim irei desaguar ao “Assim na terra como no céu – ciência,
religião e estruturação do pensamento ocidental”, da Clara Pinto Correia e do
José Pedro Sousa Dias.
Entretanto fodi o joelho na máquina de lavar roupa.
domingo, 6 de julho de 2014
dia não sei quantos ognimod: zzzdryzzme
Depois de morfar a sopa e o resto do frango de sexta,
acompanhados por aquela bebida que não é para novos, a cena do Iggy, a Lemon
Dry da Schweppes,ou isso, depois disso, mas onde é que eu ia?, bebi um café e dei
comigo a ler isto: cunha uma moeda de
cada erro, uma cena do Ludwig escrita em 1948. Fiquei uns bons quatro
minutos pendurado na ribanceira do pensamento e depois continuei a limpeza da
casota.
quinta-feira, 3 de julho de 2014
dia não sei quantos who cares quinta: toute a ver tou
Continua a lenta que se diz marcha, para o torto, para o lado, alarga,
embrutece, joga à bola com os pensamentos em pelota, ou isso. Faz-se tarde sem
sair do caralho do sítio, passaram quê, dez minutos?, nada disto tem letra
grande dentro, ainda se vai googlar sobre J. Rodolfo
Wilcock ou John Webster Spargo, à má fila, mas
nem isso renova as células cerebrais acompanhando a celeridade com que estas se
suicidam. Melhor beber copos, pensas, ao menos é um homicídio premeditado, não um
caralho de um Mário de Sá Carneiro celular com estricnina. Desculpa lá Mário.
Entretanto, vai-se um cartão, assobia-se à banda magnética, não aparece, um
funcionário cansado saído de uma rua lateral ao poema do Ramos Rosa, debita uns
que e tal, vais para a bicha, tens um papelinho nas mãos, parece que te
estou a ver. Parece mesmo que te estou a ver (risinhos).
terça-feira, 1 de julho de 2014
dia não sei quantos terça: sem adapta(dor)
Como vão os dias? Em contramovimento. As regiões adiposas convergem
misteriosamente (trata-se de um movimento com a lentidão visual das placas
tectónicas) para zonas de confronto, também divergem para zonas de confronto,
áreas cuja importância é indiscutível no terreno do corpo. No sonho, movia-me a
uma velocidade maior do que a vida, agarrava-me ao corpo como se de um eléctrico
se tratasse e, nas extremidades do túnel visual, paredes?, ramagens?,
apetitosas maçãs condescendiam que as apanhasse sem problemas de maior. Toca o
despertantes, onde está o copo de água?, fazer um chá, correr para o duche (até
este ponto tudo se resume a um reflexo condicionado), mandar tudo para o caralho
(ainda reflexo condicionado), está quente, frio, vestir, calçar, marcha o chá
preto, marcha a torrada, afinal foi um bolo, e já estás a confirmar as
pulsações, a medir mentalmente a tenção, a apanhar o elevador, a vomitar um
troço da tua vida, a desbaratar o olhar pelo espaço pejado de carros, pessoas,
mais carros que pessoas, pensas: como é possível?, e o corpo em riste vai na
frente da marcha lenta.
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