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sexta-feira, 13 de março de 2015

dia não sei quantos das investigações: a doutrina

Debalde. Ou de enxada, abriremos o cérebro à canalha. Ora, a canalha, no norte de um país chamado Portugal, são os putos. Nada disto é simples, e apesar do crescimento das pernas, descer às catacumbas do cérebro humano não é fácil, nem de archote. Derruau informa-nos que Demangeon, este último na senda de Vidal-Lablache, define a geografia humana como o estudo des rapports des groupements humains avec le milieu géographique, esquecendo, não por acaso, qualquer referência aos groupements caninos, ou mesmo a elementos caninos isolados, embora séculos de refúgio ao lado do inimigo nos tenham ensinado, como nos relata Franz, que os ossos mais duros, que contêm o tutano mais precioso, só podem ser vencidos se forem trincados por todos os dentes de todos os cães em conjunto. Isto evidentemente, acrescenta Franz, é uma figura de retórica. Será então nessas águas que navegaremos. Entretanto, voltaremos ao diário.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Dia não sei quantos 4 das investigações: as primeiras notas

e se fôsseis todos para o caralho, lia-se numa tabuleta junta à tal casa. Ainda pensei que fosse uma pergunta ao jeito sarcástico pedestre básico das redondezas, mas a ausência de ponto de interrogação apenas induzia ao erro. Deixei-me ficar pela rua e para não chamar as atenções entrei num bar. Chamava-se pé de cabra e tinha desenhada uma cabra com pés à entrada. Esta cena de animais com pernas e pés suava-me familiar. Entrei e deparei-me com vários pares de pernas e não eram de cabra (ainda não sabia as várias tipologias que a palavra cabra pode vestir), não senhor, isso via-se à vista desarmada.  Consegui chegar ao balcão com um esforço humanocanino cuja energia irradiada daria para a construção e manutenção de várias centrais eléctricas. Não dei parte fraca e investi num duplo scotch com gelo. O outro lado do balcão não sabia que caralho era um scotch. É um whisky de perto da inglaterra, alguém gritou, acrescentado: és como um cepo. Eu não sabia bem se o scotch era um whisky de perto da Inglaterra, nem sabia bem se isso teria alguma importância mas decidi começar a tomar umas notas sobre esse assunto, entre outros. Quando dei por mim estava enfiado na casa de banho, acompanhado de um par de pernas de fêmea cujas manobras nos recordariam as grandes prestações em ginástica artística de Nadia Elena Comăneci, senhora de grandes feitos, como recentemente pude comprovar ao assistindo a um documentário gravado em VHS.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

dia não sei quantos 3 das investigações:o repouso

Nem sempre a noite é chão que dá uvas. É assim a vida. Abreviando a coisa: cheguei a casa com o tambor do Bob Dylan a tamborilar na cabeça - toda a gente sabe que antes da guitarra o avó cantigas dava no tambor -, ainda concedi uma investida ao frigorífico, mas aquelas pernas cresciam a olhos vistos, metamorfoseando-se em alheiras, como no sonho. O resto também terá sido a preto e branco.  Acordei umas dez horas depois com sinos na cabeça e a sensação de estar debaixo de água. Duchei abundantemente até mudar de pele. Enquanto aquecia água para o chá abri um Cossery e fumei-o todo de lês a lês, escrevi: deixa passar. A motivação era directamente proporcional ao leitmotiv da minha indiferença.  Olhava para trás enquanto vomitava a informação obtida no dia anterior, mas apenas revia a parte das pernas da fêmea até à exaustão. Liguei a TV para saber mais sobre o desaparecimento das consoantes mudas e depois, voltando às patas, fui passear o olfacto e dar umas mijas. Não se pode facilitar relativamente ao território.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

dia não sei quantos 2/5 das investigações: pausa

Terá começado após uma noite mal dormida. A linguagem dos porquês insinuava-se pesadamente como um trailer dum daqueles camiões do comboio dos duros (acho). Passei a observar as unidades anatómicas humanas que caminham utilizando duas pernas, faziam-me espécie aquelas correrias, os afãs sem sentido, os trabalhos vãos, os trâmites alicerçados em regras, as regras com normas, as normas com excepções, os olhares perdidos à cata de algo. Aquelas unidades anatómicas viviam rodeadas de coisas. Decidi investigar, e para o feito precisava de umas pernas daquelas. De resto continuo a sonhar...

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

dia não sei quantos 2/5 ou 1/75 da investigação: o transe

Deu-me para ir ao arquivo. A noite já dava para vários peditórios. Tentava não pensar. A intuição dizia-me para me enfrascar de drogas legais à  mingua de cerveja. Entrei num bar, mais parecia um entreposto para a morte cortado às postas. Agarrei a primeira posta e consegui chegar ao balcão vivo, mas ninguém o diria. Tem que se coma?, perguntei, seguindo uma jola em sentido contrário. Não obtive resposta, pelo menos em qualquer dialecto conhecido. É claro que não insisti. Qual é a raça?, perguntaram, da cerveja?, retorqui. Claro, o que haveria de ser. Aquela voz, embora fêmea, não tinha nada de fatal. Ganhei coragem e disse: bota aí também um martini. Misturado?, rosnou a voz. Nunca gostei que misturassem as minhas merdas, muito menos a cerveja com martini, uma cena artística que implica conhecimento e experiência, Escrevi no caderninho: deixa passar. Primeiro é preciso um copo de fino bem seco mas não quente, depois mistura-se- metade da minorca botelha de martini imediatamente com a cerveja e guarda-se o restante para repetir a cena. Pedi tremoços. Ninguém deu conta. Bebi mais dois do mesmo. Ou três. Não era preciso faca para cortar aquele ar de manteiga rançosa, misturado com tabaco de enrolar. Fumei um dos meus e depois outro. As pernas já me davam conta das cruzes, mas apenas assim conseguia ver as outras pernas que se prolongavam naquele corpo de fêmea. Começava a interessar-me por estas fêmeas de duas pernas. Que se foda o arquivo.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

dia não sei quantos 2 talvez 1/5 das investigações: a trama

O tempo urgia para longe. Aquela imagem do lusco fusco emancipava uma noite de prazer e descoberta. Fui ao bar atascado da travessa de baixo. Cheirava a caldo reles e a cerveja choca. Pedi uma jola fresca, se possível. As unidades anatómicas olhavam para o ecrã. Fiz as minhas perguntas. Que tudo estava em confluência para aquela espécie de centro hospitalar do consumo. Confluência?, perguntei. Não reformulei a questão e já estava a limar umas arestas cá fora, aliviando o olfacto para outras lides. Decidi caminhar um pouco, usando para o efeito o que restava de um antigo passeio, confirmando que por estas bandas a malta não queria saber de bermas para nada. Por entre os tufos de relva bem mijada e de ruas completamente preenchidas por veículos motorizados, conseguia-se vislumbrar a peça principal do puzzle: um edifício a dar para o cinza mas desvairado por um verdadeiro arco-íris de cores que lhe adornava o dorso, um tipo ficava logo com a sensação de ter mamado uma data de cogumelos alucinogénos. Ainda bem que tinha deixado crescer as pernas para ver aquilo. Doíam-me os ossos e o lombo de não estar habituado a andar em duas patas, registei o ponto de confluência e decidi-me por meter umas moedas na máquina para descontrair e ver outras cenas. Foi então que reencontrei o Vernon, ou a possibilidade da obra-prima. Olhei em volta que se faz tarde e encetei um recuo. Pura estratégia.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

dia não sei quantos 1 das investigações: preparação

Fui ver. O caminho era estreito. Lembrei-me que não levava os auscultadores, nem sequer o leitor de musicol. Cheguei à ladeira antes da hora prevista. Não tinha marcação. Não precisava. Continuei a ver até me crescerem pernas humanas: para ver melhor (no sentido deles). Imaginei uns binóculos konos 10x25, o bastante para chamar a atenção do maralhal. Sentia-me bem dentro do sentir mal. Toda a gente canina sabe que há um espectro que mede o sentir mal, e nesse eu estava num dia bem. Adiante. Aceitei trocar a minha concentração no que estava a fazer por dois ou três minutos de consolação: um céu azul fabuloso espraiava-se em abóbada explodindo já perto da terra, tudo aquilo formava uma campânula de luz de puta madre, uma cena parecida com outra que eu havia visto numa série da FOX. Voltei a focar-me, mas sem fazer alarido. Corria riscos. Sabia-o. Estive quase para encetar um diálogo profícuo sobre o assunto comigo próprio. Escurecia. Tu queres ver?, pensei. Resmas de unidades anatómicas começavam a sua dança de fim de dia. Ainda haveria tempo?...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

dia não sei quantas terças à terça: agora é que vai for

Um dia qualquer Franz escreveu: além de nós, cães, há todas as espécies de criaturas no mundo, criaturas miseráveis, insignificantes, mudas, criaturas que não têm outra linguagem além de gritos mecânicos, acrescentando que, muitos de entre os cães, estudam essas criaturas, dando-lhes nomes, tentando ajudá-las, ou mesmo educá-las. Será esse o mote, ou talvez nem isso, para as nossas investigações. Oh, como a minha vida mudou e, no entanto, como se manteve imutável! Mas voltemos às edificações.