Depois a parte do veículo motorizado, bruuum, cruzando-se com outros
veículos motorizados, brumbruum, música a sair de uma cena embutida no
veículo motorizado, o ambiente exterior a esta cena – que não descrevemos em
pormenor – é sobretudo matizado de gotas de água e pequenas nuances
atmosféricas que electrizam o ar num enredo onde não nos é facultada qualquer
partitura. Antes da parte do veículo motorizado, dir-se-ia, uma amálgama de
gestos que se materializam a muito custo num corpo, esse corpo não dorme, a
cabeça que prolonga esse corpo dá ordens dúbias, entre as quais se vislumbra a
palavra nanar, o corpo reconhece qualquer merda mas continua a oscilar entre um
putativo record mundial das reviravoltas e um cenário que sugere o início da
metamorfose de Kafka, onde se pode ler: certa
manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama,
metamorfoseado num monstruoso insecto. Entretanto (...)
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segunda-feira, 1 de abril de 2013
domingo, 23 de dezembro de 2012
dia não sei quantos 171: zzzzza reagir bem ao tratamentoz
Pois a 20 de Dezembro de 1922, escrevia kafka no seu diário: Sofri muito em pensamento. (…) É inegável
que há uma certa felicidade em poder escrever tranquilamente: «O horror da
asfixia é inconcebível.» Inconcebível, sem dúvida, de maneira que tudo se passa
como se eu nada tivesse escrito. Entretanto, após uma ligeira limpeza da
casota, não se pode dizer que não se está bem ali ao sol, e há uma certa
felicidade em escrever tranquilamente: não se pode dizer que não se está bem
ali ao sol. Tirar os pontos não é a mesma coisa que sofrer em pensamento, pois
não?
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
dia não sei quantos 132: como já é tarde
Um destes dias ouvi dizer que um diário é o oposto dos dias com
resignação, ou resignados, já não
sei. Se calhar não percebi. Um diário é uma espécie de casa de bonecas (serve para este efeito) com(o) fachada, uma simulação demasiado próxima da
vida, quem sabe uma forma de a tornear ou de a deslindar, e também aí
guardamos, num palimpsesto escrevinhado, os nossos bonecos objectos, as nossas
meditações, quase tudo o que é preciso no invólucro suspenso dos dias. Um
diário como invólucro suspenso dos dias. Isto não quer dizer nada, como é
evidente, mas não me lembro de nada melhor. Esgotei os bonecos, parti a louça. Uma
das entradas dos diários de Kafka: "9 de
Março (1923): Utilizar o ginete do agressor para a sua própria cavalaria. Única
possibilidade. Mas quantas forças e destreza tal não exige? E como já é tarde!"
[fui acompanhante de uma ida à mercearia e ainda providenciei o regresso da tal assistência
técnica por mecanismo de garantia]
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