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segunda-feira, 1 de abril de 2013

dia não sei quantos 270: entretanto


Depois a parte do veículo motorizado, bruuum, cruzando-se com outros veículos motorizados, brumbruum, música a sair de uma cena embutida no veículo motorizado, o ambiente exterior a esta cena – que não descrevemos em pormenor – é sobretudo matizado de gotas de água e pequenas nuances atmosféricas que electrizam o ar num enredo onde não nos é facultada qualquer partitura. Antes da parte do veículo motorizado, dir-se-ia, uma amálgama de gestos que se materializam a muito custo num corpo, esse corpo não dorme, a cabeça que prolonga esse corpo dá ordens dúbias, entre as quais se vislumbra a palavra nanar, o corpo reconhece qualquer merda mas continua a oscilar entre um putativo record mundial das reviravoltas e um cenário que sugere o início da metamorfose de Kafka, onde se pode ler: certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso insecto. Entretanto (...)

domingo, 23 de dezembro de 2012

dia não sei quantos 171: zzzzza reagir bem ao tratamentoz


Pois a 20 de Dezembro de 1922, escrevia kafka no seu diário: Sofri muito em pensamento. (…) É inegável que há uma certa felicidade em poder escrever tranquilamente: «O horror da asfixia é inconcebível.» Inconcebível, sem dúvida, de maneira que tudo se passa como se eu nada tivesse escrito. Entretanto, após uma ligeira limpeza da casota, não se pode dizer que não se está bem ali ao sol, e há uma certa felicidade em escrever tranquilamente: não se pode dizer que não se está bem ali ao sol. Tirar os pontos não é a mesma coisa que sofrer em pensamento, pois não? 

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

dia não sei quantos 132: como já é tarde

Um destes dias ouvi dizer que um diário é o oposto dos dias com resignação, ou resignados, já não sei. Se calhar não percebi. Um diário é uma espécie de casa de bonecas (serve para este efeito) com(o) fachada, uma simulação demasiado próxima da vida, quem sabe uma forma de a tornear ou de a deslindar, e também aí guardamos, num palimpsesto escrevinhado, os nossos bonecos objectos, as nossas meditações, quase tudo o que é preciso no invólucro suspenso dos dias. Um diário como invólucro suspenso dos dias. Isto não quer dizer nada, como é evidente, mas não me lembro de nada melhor. Esgotei os bonecos, parti a louça. Uma das entradas dos diários de Kafka: "9 de Março (1923): Utilizar o ginete do agressor para a sua própria cavalaria. Única possibilidade. Mas quantas forças e destreza tal não exige? E como já é tarde!"

[fui acompanhante de uma ida à mercearia e ainda providenciei o regresso da tal assistência técnica por mecanismo de garantia]