sábado, 27 de agosto de 2016

é o que é

Ando indeciso, após a leitura do meridiano de sangue do Cormac dificilmente a vida poderá ser a mesma coisa, não há qualquer redenção que emane daquelas páginas retiradas de um qualquer lugar inóspito. Ando indeciso, deambulo por entre Sterne e Wodehouse, tentando adocicar a coisa, procuro um banho de misérias em fundo histórico com Gore Vidal, observo de soslaio Zola, encolho-me à passagem de um expresso da semana passada com o Camilo a brotar de páginas amorfas. Nada me basta, me cura, nada me salva daquele meridiano, procuro brandura recorrendo a outro Cormac, não observando a regra de uma vida, não ler dois seguidos do mesmo autor, nada me basta, nada me cura, mesmo esta luz travessa que me banha em pequenos farrapos me aborrece, como me aborreceu ainda agora aquele a árvore da vida do Malick, meia hora de bom cinema não basta para esconder quase duas horas de inutilidade entediante. Canso-me a mim próprio (deixem passar)…é o que é. 

sábado, 20 de agosto de 2016

Isto para (re)começar


Andar para trás, dela dizem que muitas vezes assim anda, a vida, para trás, mentem, não anda, caminha inexoravelmente em direcção ao nada. E alguém sabe onde fica o nada?

domingo, 24 de julho de 2016

dispensa de retenção

às vezes ao domingo é domingo: os vizinhos do lado fazem o seu número de circo brejeiro,  escutando-se bem, lá em baixo, enche uma banheira, o sol tenta entrar coado por várias barricadas e, não tarda, cheirará a algum assado com batatinhas, mesmo sendo verão. Às vezes é domingo ao domingo: limpar a casota, dar de comer a um ou dois vícios, ficar em casa até ao final da tarde, extenuado por um tédio galopante, fazendo contas à vida que se esvai numa lentidão de formalidades, maneirismos, preocupações, diversões vazias e auto-impostas, enquanto não chega hora de mais uma formalidade protocolar, ser recebido num tasco por membros de uma seita de idiotas chapados. Às vezes ao domingo é domingo e temos consciência disso. O pior é quando se aproxima uma segunda-feira que também é domingo. O sábado de ontem cometeu suicídio. Por esse facto pedimos as nossas desculpas e a vossa melhor compreensão.

domingo, 17 de julho de 2016

A escorregar na obscuridade

queria andar com uma sapatilha com atacador de bruma para quem anda nas nuvens, escreveu um dia Dinis Machado, era com sapatos, acho, não interessa, um atacador de bruma faz sempre jeito para quem anda nas nuvens, podia ser um atacador de nevoeiro cerrado, mas não era a mesma coisa, queria viver junto ao aço dos corações como quem voa, ou nem isso, coração pequenino, desperto em múltiplas situações que o bater das asas desconhece, correr assim como quem vai à mercearia antiga e depois os produtos são levados a casa, está calor, aí estão os artigos, folha de vinte e cinco linhas, a contabilidade das dores, não oxida?, nunca oxida a contabilidade, também temos gestão das dores, é outra coisa, a gente leva a casa, não se preocupe, não oxida, é perto do mar?, aí vão as dores, ó se vão, agora em contentor, vou correr com isto tudo a tiracolo, sai uma bomba da asma, e parágrafo nada?, não sei nadar, diz a encomenda, mas vai, vai como quem não sai do sítio, deve existir uma aplicação para isto tudo, deve, deve existir um sítio onde se sentam todas as dores, a luz é péssima, diz que sim, mas vá que não vá, um sítio onde as dores fazem um barulho de ondas, ali, diz que será ali. ninguém sabe...

sábado, 2 de julho de 2016

Feira medieval de antiguidades suevas


A páginas tantas lembrei-me da antiga Roma, não da série, mas de uma quantidade de merdas que li e sobrevoei durante estes caninos anos da minha vida, a cena do circo, quer dizer, pão (algum) e circo, Roma percebeu logo a decadência na plenitude dos sentidos, percebeu o logro, o simulacro do entretenimento como forma de empapar os sentidos, percebeu-o em vida, afastando-se já daquele tronco grego de que tanto havia sorvido a seiva. Nem isso é hoje o país da bola cujos bilhetes saem no juá de uma grande superfície. À tona percebe-se uma alegria que apenas bruxuleia perto de uma câmara de televisão, na recepção de um autocarro, numa promoção de leve dois pelo preço de um. Nos estádios, faz pena aquele silêncio de quem mói um pensamento, de quem está  habituado a curvar-se ao destino, de quem não sabe a importância de um símbolo. O rebanho acardita naquilo como acardita no Big Brother para incontinentes. Tanto faz. Faltam apenas dois empates. 

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Volta ao mundo dentro de uma parceria público privada

Albergar alma humana implica um esforço cuja imensidão toca os ventos agrestes que sopram de norte nas praias do Minho. E que nos adianta um Verão assim de corpos panados sem alma que o valha? Tenho trabalhado nisso, mas fundamentalmente tenho construído mais umas cidades para os outros, cidades, cobertos, celeiros, arrumos no sopé das montanhas por eles sonhadas. Tenho contribuído com a minha fé para amortalhar cada segundo válido deste mundo, bem amortalhado até perder o sentido, e assim provocar a desaceleração da construção interna de questões pelos nossos neurónios. Quer dizer, queria não pensar, pensando, queria o deleite sem o derrame de quotidiano que nos aflige os sentidos, queria viver como quem respira sem notar que está a respirar. Já pensei em comprar uma bicicleta daquelas com motorzinho e sair por aí a disparar impropérios contra o quotidiano, contra a rotina, contra as calças que já se compram rasgadas nos joelhos, tudo isso devagarinho, ora com o motor ligado, ora desligado, e assim seguir mundo dentro que já se faz tarde. E depois beber um ginger ale e escutar o grande génio do senhor Walker.