Vai daí abri o olho…huuum, chuva tonificada pelo vento?, ocultei o
embaraço entre os lençóis, já estou fodido com isto, levantei-me uns quinze
minutos depois e fiz um chá verde como se nada fosse. A coisa continuava.
Respondi a um anúncio de emprego e depois fui ler umas merdas. Estive mais de
uma hora nessa cena de ler umas merdas e acabei a reflectir sobre essas merdas
que li, mas como o cérebro faz ligações fodidas comecei a pensar nos dois
anúncios (de emprego?) que já havia respondido esta semana e nos milhões de
anúncios que já respondi nos últimos triliões de segundos, pensei nos
telefonemas (ainda ontem caralho!), nas reuniões, projectos, cenas, um gajo a aparecer
para ver no que dá, pensei nas entregas de cv´s em mão, no pé, à cintura,
deambulações, flanações, solicitações, empreendedorismos de meia tigela,
planos, biscates técnicos, pensei na actualização da merda do vitae, mas com o
quê?, merdas freelancer?, mas que merdas?, actualizar o cv com o diário do Cão?,
grande ideia. Vou dar o CV ao Cão. Não há graveto para nostalgias.
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quinta-feira, 7 de março de 2013
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
dia não sei quantos 229: como uma manopla ao vento?
O observador sempre quis uns
binóculos, uns lunetes daqueles mesmo a sério, daqueles que ver muito ao longe,
muito ao longe, torna as coisas pequeninas dentro de um frasquinho sempre à
mão, depois o observador ficaria oculto atrás de algumas rochas cujos lacraus
seriam os cortinados de sua casa, não sabemos se se trata de um deserto, não
sabemos se aquele austríaco dos detectives selvagens, Heimito Künst, estaria
por perto, Heimito teve febre, bem o sabemos, Heimito não conseguia aguentar,
mas aguentou, adormecendo, os sonhos de Heimito não o largavam a noite inteira,
Heimito achava que os sonhos não têm dedos, têm punhos, e por isso deveriam ser
lacraus. Heimito sabia tudo mas não sabia nada. E nisso estava como o nosso
observador que analisava o exterior sob uma penumbra filtrada de lacraus e depois,
durante horas, perscrutava o horizonte, tomava notas, adormecia, coçava os
bolsos das calças e, sem se dar conta, chegava sempre ao local de onde havia
saído no início do sonho. Por fim acordava. O observador sabia tudo mas não
sabia nada.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
dia não sei quantos?...3...224...sob vigilância
Entretanto, nos interstícios do delírio da febre, vai dando para
reflectir em montes de merdas desorganizadamente, entretanto, pensamentos como tenho coisas a fazer deixam de fazer sentido, o adversário não abdica de tergiversar, confundindo-nos com palavras difíceis, estratégia
que culmina invariavelmente num ora essa suado.
Assim que der volto.
(imagem desfocada que se pode assemelhar ao adversário...eu vi logo que não era apenas um)
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
dia não sei quantos 223: combate corpo a corpo
Após um período doidivanas em vinha-d’alhos eis que
resigno.
[e não é que o Cão também apanha gripes fodidas? –
passe o plural, é que parecem muitas…]
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
dia não sei quantos 209: o cão no seu labirinto
Depois as coisas medram à nossa volta, crescimento galopante, um tipo
olha e não vê nada, olha sem ver, ainda por cima merdas que nos são familiares,
quistos urbanos, feijoeiros vingativos e outras cenas, um tipo olha, faz
planos, planos inclinados são… eh…eh…um gajo vai em declive acentuado mas não se
apercebe, vai arranjando soluções portáteis – e nesse sentido ajuda dar uma
vista de olhos pelas cenas do Vila-Matas, e entretanto vai-se miniaturizando para
escapar às emboscadas da sua mente, cria uma série de símbolos, anagramas,
merdas a boiar no vácuo e segue caminho como nada fosse, até aqui tudo bem, mas
vai atolado em literatura (com banda sonora), fechado dentro da sua própria
página esquecida e mundana, e também lhe pode dar para as bebidas fortes como
metal fundido. Mas nem se apercebe. Também pode optar pela cerveja, e já lá
vamos recorrendo ao Fernand Braudel. Mais tarde, agora estou cansado.
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
dia não sei quantos 190: aos pensamentos oníricos latentes
No sonho eu passava directamente para uma pensão/reforma choruda, havia bungalows com moças e quedas de água, música, livros, as moças
riam-se dos livros, os moços que apareciam também, havia piscinas naturais mas
também outono com árvores de folha caduca, as tipas e os tipos não gostavam do
outono nem das folhas, eu ficava fodido, lembro-me bem, mas ficava para ali a
olhar as aves em romaria, o Sporting ganhava um campeonato ou outro, assim está
bem, não é nosso ADN ganhar à tripa forra, depois a pensão choruda, uiii, alguém
decidia aumentar os impostos, buuuh!, alguém se insurgia, eu fingia ficar
fodido mas à beira do presidente chefe insurgia-me contra esta debochada
catanada aos bolsos dos reformados das reformas chorudas [risinhos] que nem sempre estão reformados, depois
disfarçava-me de várias cenas e percorria o mundo, tentava sobretudo conhecer
outras merdas, ver outras merdas e compreender outras merdas, quando me dei
conta estava com pouca gente à volta, dois três mânfios e mânfias fixes, e foi
então que acordei, ou o caralho. De pensão choruda népia.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
dia não sei quantos 175: sua estética de simulação
Por exemplo, a cena destes dias, às vezes penso nisso com uma certeza
carnívora, os exteriores e mesmo os interiores fazem lembrar cenários, não
aqueles cenários realistas e pomposos, ou supostamente realistas mas igualmente
pomposos, nem sequer aqueles espaços reais que simulam outros espaços reais
como cenário de fundo, a cena dos western spaghetti na Andaluzia, ou isso, não,
estes cenários recordam-me o Dogville ou o Manderlay do Trier, filmed in a studio with a minimal set, tudo
tão óbvio que nos transporta para a narrativa, lá para dentro, mesmo lá para
dentro, e a páginas tantas aquilo é mesmo real, mais real que a própria vida,
aquilo ali não é teatro, mas algo com que nem o Baudrillard contava: a
simulação de uma simulação. Este contrário é o quê?, o que vemos, vemos pelo
olho da câmara, a câmara ali faz toda a diferença, mas depois esquecemo-la e o
que resta são resíduos, contornos, espaços minúsculos misturados com pessoas, e
essas pessoas são também décor, décor de si próprias ou se quisermos das
próprias personagens. E entretanto começa a fazer sentido para quem entra por
esses olhos dentro (por favor não liguem aos pleonasmos), e é assim que eu vejo
estes dias, por uma espécie de câmara, os meu olhos, estou fora e ao mesmo
tempo estou dentro, é como se fosse um sonho, tão obvio que parece um sonho mal
desenhado, e um tipo está ali a dormir e percebe que está a sonhar, com a
diferença que não estou a sonhar, mas lá que parece um desenho distorcido,
parece. Não sei se me faço entender?
Já volto.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
dia não sei quantos 161: é impossível exigir que todos os pressupostos se baseiem em argumentos
Tudo isto são árvores, momentos da infância reanimados por minúsculos
lapsos de tempo, a seu tempo, o passado, mas não deixando as vertigens de cada
subida por mãos alheias, cada um alcançando o seu ramal, perdão, ramo, cada um
oxigenando-se no sorrateiro momento único, ali e acolá, companheiros amigos,
outros leva-os o vento, aqui cada vez mais alto o pensamento sem rumo, o
pensamento ruma ao distante longe, ao olhar mais remoto que alcança a vida,
outra que não esta. O momento fica, senta-se, faz a vénia antiga que vive na formosura da cortesia, ali ao lado e, quem sabe, noutros lugares, morre-se
por devaneios mais louváveis. Um homem, talvez um homem baste, para um
arquipélago de sonhos ser completamente idealizado.
[agora vou ali fazer um complemento de leituras, antes talvez o duche...]
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
dia não sei quantos 152: pancadinhas no [meu] índex
Impõe-se, por exemplo, sabermos o que será feito das Bohemias Reserva 1835, e onde se poderá
diligenciar informação fidedigna a respeito de tão insigne questão, estão
coisas chateiam-me imenso, preocupo-me imenso com situações deste calibre que
se esvaem, por assim dizer, se esboroam (é melhor) das nossas vidas, à falta de
outra figura, como areia entre os dedos, deixando-nos abismados sem abismo que
nos valha. Posto isto, sei bem que o tempo voa, e se lhe dou premissa, menino é
para se injectar nas minhas veias, aforrando-me de anomalias tradicionalmente
reconhecidas como avarias, ou desvarios, nada disto é o que realmente queria
dizer, mas coisas há que de tão imprescindíveis se revelam inexoráveis, noutro
sentido, são coisas que não nos permitem saborear os langores que acabam, como
diria o Beckett, acho até que o escreveu, mas onde?, ah!, no Molloy, só pode
ter sido no Molloy. É do caralho, o Beckett!
[entretanto fui fazer de conta que corria]
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
dia não sei quantos 127: O sportinguismo como uma das belas-artes (ou a Galápagos sportinguista?)
Um dia qualquer Camus disse, mas também terá escrito (isto em francês,
claro), que um tipo se habitua a tudo até a viver dentro de um tronco de
árvore, numa cena existencialista que ainda faz correr o pano dessas mangas, ou
por aí. Prova disso os servos da gleba enclausurados durante séculos num
sistema que um dia até lhes terá parecido de sempre e absolutamente
compreensível, ou as castas indianas, essa democracia grande, mas que não é
grande coisa, com os seus intocáveis sempre abaixo, ou os corpos que
singelamente ajudaram a adubar a grande muralha da china, nada como a carne
para assegurar o mister dos canhões e dos impérios, e prova disso ainda, os intrépidos
adeptos sportinguistas, ano após ano esfregando as mãos, inexpugnáveis na sua
dor transmissível apenas a alguns eleitos, o que não quer dizer que não possa
estar a exagerar nessa estranha forma de vida que entretanto se entranha. Tudo
se transforma, e nesse desconhecido jogo de onze contra dez, o final é um
prolongamento da tese Linekerniana de que no final (por favor deixem passar os
pleonasmos, isto já é suficientemente penoso para mim) ganha sempre a equipa
que joga contra o Sporting, ou quando muito empata vá, ao mesmo tempo que os
tipos assinalados como jogadores demandam salário ao final do mês por fazerem
de conta que são jogadores, numa interpretação, os ingleses chamar-lhe-iam de
fenómeno impersonating, a todos os
títulos genial, no sentido em que quem está a assistir acredita piamente que
aqueles seres humanos são jogadores de futebol, porque se assemelham em tudo a
jogadores de futebol, apenas não jogam nada, absolutamente nada, nem exibem
qualquer tendência que nos permita pensar de outra forma. Temo que pela
primeira vez na história da humanidade, o homem, segundo o qual Camus disse se acomodar
a viver inclusive dentro de um tronco de árvore, não consiga, os sportinguistas
não consigam, se adaptar a este estado final das coisas. Deve ser a evolução ou
o caralho.
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
dia não sei quantos 104: ztónico
Aquela velha história do não estava
calmo afinal acompanhava os meus passos, numa volta que havia sido curta, a
missão, essa, terá desaguado não se sabe bem onde, mas desaguou, cada vez mais
desagua não se sabe bem onde, entretanto chove, já é hoje, quer dizer, já será
hoje, quarta-feira, dia não sei quantos de Outubro, parte da manhã, um tipo
acorda, faz de conta, toma o pequeno-almoço, desenjoa, senta-se e começa assim:
aquela velha história do não estava calmo afinal acompanhava os meus passos,
numa volta que havia sido curta, a missão, essa, terá desaguado não se sabe bem
onde (…).
[zzZz]
sábado, 13 de outubro de 2012
dia não sei quantos 100: pequeno-almoço de campeões
Um dia desses dias, escreveu assim Borges: “A meta é o esquecimento./ Eu
cheguei antes”, e apercebo-me que penso nisso há, pelo menos, dezassete horas,
isto é, mil e vinte minutos, isto é, sessenta e um mil e duzentos segundos, isto
de cabeça, ou isso, o que é muito, observado nesses termos, esta cena do tempo
é mesmo marada, e depois o poema, claro, claro, o poema cujo título Um poeta menor faz parte de A rosa profunda. Agora vou tomar o pequeno-almoço.
E ao mesmo tempo penso nisto.
[vou ter que reler]
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
dia não sei quantos 95: nasceu-me a razão?
Acho que começava por cortar os pulsos para beber o (próprio) sangue com
vodka, fazer uma bloodka, na boa, acho que começava assim o sonho, para dizer
verdade não sei se era bem um sonho, por vezes, já tentei explicar isso mesmo,
por vezes, não distingo com a clareza necessária o real do não real,
empacotando a coisa numa espécie de carrocel surreal, coisa que os surrealistas
não desleixaram, suponho. Tenho livros sobre isso. De qualquer modo, dei por
mim, a páginas tantas nocturnas, fodido, fodido para perceber como quarenta e
cinco minutos de futebol, podem cooperar para, cada um à sua maneira, desmistificar
a evolução do ser humano, assentando-o no final, bem no final, da cadeia que
este supostamente encumeia.
Não satisfeito, o destino, ou isso, hoje pela manhã, pelo final da manhã
para ser mais consistente, desfecha mais esta
bordoada, no inútil. Como diria o Rimbaud: “escravos, não amaldiçoemos a vida”.
terça-feira, 18 de setembro de 2012
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
dia não sei quantos 62 e tal: pintar o sete
Escreveu o Cesariny:
“Voltar ao fim./Pintar três vezes o sete:/ ficar doido.”
terça-feira, 28 de agosto de 2012
dia não sei quantos 54: aparentemente está normal
A desorientação preenche todos os
interstícios, acomoda-se a cada osso, a cada músculo, tornando-se ela própria
movimento, locomoção e, por fim, pensamento. Coisas aparentemente fáceis
afiguram-se arremessos esgotantes, um momento ou um instante reproduzem
trabalhos hercúleos, a comunicação começa a ser um roteiro perfeitamente
definido por homúnculos instalados no cérebro. E o pior é encontrar alguém na
rua, no meio de dois mil pensamentos, ou mesmo ver alguém ali ao… longe, e já
tão perto, que dizer?, que fazer?,
continuar ou seguir pela transversal? O tabuleiro és tu próprio, e as peças
de ambos os campos és tu, e és tu que jogas, aparentemente jogas-te a ti
próprio numa batalha absolutamente impossível de ganhar ou de perder. Assim tens
sempre razão, é o que é.
sábado, 25 de agosto de 2012
dia não sei quantos 51: a encenação
Medrei a ver a RTP2, filmes, séries e documentários e, às vezes, o Acontece. Também acompanhei, como toda a
gente, a RTP1 (já para não
falarmos da rádio), desenhos animados, filmes, novelas, séries e algumas
cenas mais ou menos de entretenimento. A RTP1 expirou muito antes de o Acontece ter sido definitivamente enterrado na RTP2, e foi nesse momento, quando
a comunidade artística do vazio passou a assumir as rédeas do canal, juntamente
com os seus amigos da política do vazio, mais os outros das cenas criativas e
do marketing do vazio, foi nesse momento, que tudo se decidiu, ou isso. Nem
sequer é apenas a cena do comercial, ou essa merda que denominam de serviço
público ao mesmo tempo que fazem basicamente serviço pimba, é a
instrumentalização total desta e de todas as outras merdas passíveis de serem
instrumentalizadas, manipuladas e vertidas em estatísticas e numerários,
convertidas em analgésicos ou speeds conforme lhes dá na veneta. Merdas mal
geridas mas com montes de tipos e tipas à perna para as apanhar e mais
disputadas que a presença do castelo branco nas festas white. Até eu sou
suficientemente inteligente para perceber isso. Será que os tipos ou tipas
dessas merdas me arranjam um emprego fixe? Tenho qualificações, montes…
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
dia não sei quantos 33: assim
zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzmarzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzcaminhadazzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
domingo, 29 de julho de 2012
dia não sei quantos 30: há uma voz de sempre
Não sei bem porquê, mas a coisa começou por correr de forma razoável,
para matinal, quer dizer, para matinal de domingo, ali ao lado dia santo, um
tipo sabe dessas coisas, está enquadrado numa cena base judaico-cristã, mas com
o lastro anterior greco-romano, o que nos permite outras veleidades, para usar uma
linguagem futeboleira, ou isso. Depois de encher o canastro de filmes, consegui
a proeza momentânea de deixar de pensar, quero dizer, pensar muito, pensar
muito em coisas, cheguei-me lá mais para os subúrbios do pensamento, esses
bairros sensíveis, mas que ninguém quer saber e, digo-o com pasmo, adormeci
caritativamente de forma a acamar os sonhos todos num recipiente longínquo. Não
sei se resultou, mas não me recordo de um único sonho, para além de ter todos
os do mundo. É o lastro greco-romano, só pode…
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